
Por alguns minutos, Syaoran ficou ali parado, olhando para o cadáver da irmã, sem saber o que fazer.
Depois, ainda muito lentamente, bastante entorpecido pelo choque, seu cérebro começou a funcionar.
Emerson tinha feito aquilo! O escrivão da polícia! Um homem que sempre se mostrara tão amigo de sua família!
Apanhou um cobertor, cobriu o corpo da irmã e murmurou:
- Não posso acusá-lo... A única pessoas que poderia fazê-lo está morta...
Deixou o quarto de Tomoyo, apanhou o revólver que deixara ao lado do cadáver do pai, foi até a sala e olhou demoradamente para os corpos de sua mãe e de seu irmão.
- Vou vingá-los - disse - Nem que seja a última coisa que farei na vida, mas juro que hei de vingá-los!
Passou para o escritório de seu pai e, atrás de uma bonita gravura de Hiroshigue representado por um
daimyo cercado de gueixas, abriu o cofre secreto onde o velho Matsuoka guardava o dinheiro da folha de pagamento da fazenda.
Era um bom dinheiro... Seria muito fácil contratar um matador profissional, mas Syaoran nem mesmo pensou nessa possibilidade. A vingança teria de ser levada a cabo por ele, por suas próprias mãos.
Pegou todo o dinheiro que estava no cofre, voltou a fechá-lo cuidadosamente, recolocando a gravura no lugar. Depois, sentou-se à escrivaninha de seu pai, apanhou uma maleta que estava ao lado da cadeira e pôs dentro dela o dinheiro, o revólver e uma caixa de munição que tirou de uma das gavetas. Ergueu os olhos para a estante que estava à sua frente e demorou o olhar sobre o
daishô - o conjunto de espadas, a
katana e a
wakisashi - que fora de seu bisavô por parte de pai.
Por fim, ergueu-se, apanhou o
daishô, a maleta e deixou o escritório, murmurando:
- Esta tudo acabado... Agora, só me resta o
Katakiushi... A vingança! E não descansarei enquanto não vingar minha família!
Foi para o seu quarto, preparou uma mala com suas coisas, levou-a para o jipe e pegando um latão de gasolina no galpão onde ficavam guardados os carros da família derramou-o sobre o chão da casa e, especialmente sobre os cadáveres que, chorando muito, juntara num cômodo só. Fez um rastilho com o que restava do combustível e, já com o motor do carro ligado, aproximou um fósforo aceso da gasolina.
A chama correu como uma serpente, alcançou o interior da residência e, numa explosão abafada, incendiou tudo.
Syaoran Li ficou alguns instantes vendo o fogo, lembrando-se de seus parentes enquanto ainda vivos e pensou:
- Pelo menos os curiosos não terão muita coisa para ver...
Assumindo a direção do jipe, olhou mais uma vez o relógio. Passava um pouco das duas horas da madrugada. Àquela hora, a maior parte das pessoas estaria dormindo e, assim haveria pouca probabilidade de alguém ver, ainda que de longe, o incêndio.
- Terei pelo menos duas horas para realizar o que preciso - murmurou, arrancando com o carro - Para um homem como o Emerson, a noite mal terá começado e sei muito bem onde poderei encontrar esse bandido!
A noite não era diferente de qualquer outra, ali no
Danúbio Azul, um dos mais conhecidos inferninhos de Campo Grande: as mulheres circulavam de mesa em mesa, fingindo beber e fazendo os clientes beberem, os garçons afobavam-se para servir a todos e, no pequeno palco ao fundo do salão , uma loura de idade indefinida - tanto poderia ter vinte e cinco anos como cinqüenta - cantava boleros de muitas décadas atrás, enquanto duas moças seminuas exibiam-se, os seios à mostra, numa dança que em hipótese alguma acompanhava o ritmo do que estava sendo executado por um conjunto de cinco músicos, um no violão, outro no piano, mais um numa harpa paraguaia e dois na percussão. Como de hábito, nenhum dos clientes estava prestando atenção à música e a atmosfera carregada de fumaça, densa como uma verdadeira neblina, ajudada pela iluminação mortiça amarelo-avermelhada do salão, mal permitia que se enxergasse a mais de cinco metros de distância.
Apesar da má visibilidade que imperava no interior da boate, Syaoran Li não teve qualquer dificuldade em identificar, entre a boa centena de pessoas que ali se encontravam, a figura de Emerson, sentado a uma das mesas no fundo do salão, tendo uma morena sobre seus joelhos.
Seria muito fácil para Li aproximar-se do homem e matá-lo com um tiro do revólver que trazia escondido sob a camisa, sem lhe dar tempo para qualquer reação.
Porém não era isso que ele pretendia fazer. Ele queria que Emerson sentisse a morte em toda a sua intensidade, queria que ele soubesse por quê estava sendo executado.
Assim, a única possibilidade que estava ao seu alcance era fazer com que o escrivão policial saísse da boate e o encontrasse do lado de fora, já à sua espera. Por outro lado, Syaoran não poderia mandar chamá-lo, pois isso obrigatoriamente faria com que houvesse pelo menos uma testemunha que facilmente poderia reconhecê-lo, o que não era interessante para ao seus planos. Ao mesmo tempo, ele não poderia ficar ali, esperando que o homem saísse da boate por sua livre iniciativa... Isso poderia acontecer dentro de cinco minutos ou algumas horas e, se ele demorasse muito, haveria o risco da alguém ver o incêndio e, então...
Fixou o olhar em Emerson, não sem um bocado de dificuldade, procurando ver se alguém, além daquela mulher que o estava beijando como uma noiva apaixonada, estava com o escrivão. Não viu ninguém. Tudo indicava que ele estava sozinho.
-
Se essa mulher se afastar dele... - pensou Li, puxando um pouco mais para cima a gola do blusão que estava usando -
Talvez eu possa falar com Emerson sem maiores perigos.
Bem se diz que muitas vezes
Oni ajeitava as coisas de maneira aos homens poderem cometer atos que, vistos por um certo prisma, seriam malignos...
Exatamente naquele momento, uma outra mulher tocou o ombro da morena que estava com Emerson, cochichou-lhe alguma coisa ao ouvido e esta, beijando mais uma vez o escrivão, levantou-se e acompanhou a amiga em direção ao toalhete.
Era a oportunidade que Syaoran estava esperando, e ele não a desperdiçou.
Segurou com força o cabo da
wakisashi que trazia metida no cinto da calça e, em passos rápidos aproximou-se de Emerson que, naquele instante, estava enchendo mais uma vez o copo de uísque.
Sem qualquer cerimonia, sentou-se à direita de escrivão.
Continua no próximo capítulo...