quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Aruanã


Eriol, chefe de operações da Polícia Federal em Brasília disse, desanimado:

- Acho que teremos problemas com esse caso...

O delegado especial Syaoran Li, sentado diante de Eriol, sorriu.

- Há muito dinheiro envolvido - disse ele - É bem provável...

- Leu os relatórios? - perguntou Eriol.

- Sim - respondeu Syaoran.

Eriol ajeitou os óculos, acendeu um cigarro e falou:

- Vamos recapitular...

Soltou uma baforada para o teto, apanhou uma folha de papel para rabiscar enquanto falava - uma velha mania que tinha e que já lhe custara uma pequena fortuna em psicoterapias - e começou:

- Maruko Sueto, delegado de Polícia em Ubatuba, achou que merecia investigar a respeito de um imenso derramamento de dinheiro em sua cidade.
Riscou algumas flechas no papel - seu psiquiatra costumava dizer que isso era apenas uma manifestação de libido, um símbolo fálico reprimido - e prosseguiu:

- Ele estranhou que um grupo estivesse com tanto dinheiro a bordo de um iate ancorado na marinha do Hotel Saint Maurice. Telefonou para nós perguntando sobre o seu proprietário, Josias Nunes. O pessoal do computador encontrou mais de cem registros, nenhum deles com coisa alguma que possibilitasse a posse de tantos milhões. Pusemos nossos rastreadores em campo para investigar a vida de um por um desses Nunes. Nada foi encontrado de anormal. Imaginamos, então, que esse indivíduo poderia não ser brasileiro, mas nem por aí tivemos alguma luz sobre o caso. Eriol ficou em silencio por alguns segundos, desenhou um violão - que para o seu psiquiatra, significava o desejo subconsciente de prazeres sexuais recalcados e não realizados - e, fixando o olhar em Syaoran, prosseguiu:

- Contatamos a Receita Federal. Inutilmente. Não há nada a respeito de nenhum Nunes que tenha uma fortuna tão grande a ponto de poder efetuar negócio dessa monta.

Apanhando um outra folha em branco, começou a desenhar uma paisagem de montanhas cujos contornos assemelhavam-se aos seios nus de uma mulher. Para o psiquiatra, ele estava manifestando insegurança e desejo de voltar ao colo materno, era um regresso subconsciente à fase oral de seu desenvolvimento e uma necessidade reprimida de carinho feminino, de contato físico com os seios nus de uma mulher. Eriol desistira das sessões de terapia.
Sacudiu a cabeça afastando aquelas lembranças, e continuou o seu ralato:

- Descobrimos que as compras tinham sido efetuadas em nome de um homem, um tal de Fernando Vicente Nunes, filho de Josias Nunes. Os dois negócios foram realizadas no mês de Julho. Já estamos em Agosto e ainda não conseguimos nenhum progresso nas investigações.
Olhando para o chefe, Syaoran perguntou:

- O que quer que eu faça?

- Não sei - respondeu ele - Recebi hoje um pedido de alguns deputados, solicitando informações a respeito desse homem e de sua companhia, uma vez que eles deverão autorizar o jogo nesse hotéis de Ubatuba. Meia hora após eu ter lido essa solicitação, recebi um e-mail assinado por Fujitaka Kinomoto, deputada da oposição que praticamente ordenava a suspensão de toda e qualquer investigação a esse respeito!
Syaoran arregalou os olhos, dizendo:

- É estranhos... Conheço o deputado Kinomoto e acho incrível ela fazer uma coisa dessas! Ele é formalmente contra o jogo! Não creio que Kinomoto tenha feito uma coisa dessas por sua vontade!

Eriol olhou para Syaoran e indagou:

- Acha que Kinomoto esteja sendo pressionada?

- Pode ser - falou Syaoran, após alguns segundos - Alguma coisa está acontecendo e é preciso investigar, descobrir de onde vem tanto dinheiro e quais são as verdadeiras intenções dessas pessoas que estão investindo tão alto em Ubatuba. Isso cheira a lavagem de dinheiro... Por fim, é preciso saber o que está acontecendo com Kinomoto para fazê-la mudar tão radicalmente de opinião a respeito de jogo. E vou encontrar as respostas!

Eriol sorriu. Syaoran Li era o seu delegado predileto. Conhecia-o desde os bancos de faculdade e sabia que Syaoran era um indivíduo teimoso, persistente, muito inteligente e incorruptível, mesmo porque ele era a última pessoa do mundo a precisar do que ganhava como delegado da Polícia Federal...
Neto de imigrantes chineses que chegaram na segunda leva de imigração, em 1912, era herdeiro de milhares de hectares de terras no norte do Estado de São Paulo e dono de dezenas de milhares de reses. Sua renda pessoal era incomensuravelmente maior do que cinquenta vezes o salário de seu próprio chefe.
Só tinha um defeito: não podia ver uma mulher bonita. Se é que isso pode ser classificado de defeito...

- Não esperava outra coisa de você, Syaoran - disse Eriol, apertando a mão do delegado - E, por favor, comece imediatamente!

Syaoran anuiu com a cabeça e, nesse momento, a secretária de Eriol entrou na sala e disse:

- Sinto muito interromper, doutor Eriol, mas ela disse que é extremamente urgente e, de mais a mais, é a filha de uma deputada importante.

Sem esperar mais, a secretária sorriu e voltou-se para a porta, falou:

- Senhorita Kinomoto... Faça o favor de entrar!

continua no próximo capítulo...

domingo, 19 de outubro de 2008

Aruanã


O Aruanã - nome de um peixe alongado e cheio de espinhas dos rios da região do Araguaia - estava ancorado a duzentas braças da marinha do Hotel Saint Maurice, em Ubatuba. Era uma embarcação que mostrava claramente o poderio econômico de seu proprietário e parecia um enfeite para a já tão bonita paisagem.
Nas marinhas destinadas a milionários, ninguém acha estranho que os ocupantes de um barco decidam permanecer a bordo, sem praticamente não irem à terra.
Esses milionários exigem a mais absoluta privacidade. Não querem saber quem está no barco ao lado e, em contrapartida, não desejam que saibam que estão ali.
Assim, ninguém na marinha achou anormal quando o comandante do Aruanã anunciou pelo rádio que seus patrões não queriam ser incomodados.

- Mas há uma vistoria de rotina da Polícia Marítima - avisou o gerente da marinha.

- A polícia pode subir a bordo, mas ninguém mais - disse o comandante.

Dessa forma, na tarde em que ele atracou, os homens da Polícia Marítima procederam à sua vistoria, constataram que nada havia que despertasse qualquer suspeitas e foram embora.
Durante a semana que se seguiu, ninguém desceu do barco. No entardecer do oitavo dia o comandante veio para terra. A lancha de doze pés que o iate carregava encostou no pier, deixando o comandante e mais um tripulante, um homem que parecia ser o elo entre a evolução do gorila e do Homo sapiens, com mais de um metro e noventa de altura e no mínimo cento e cinquenta quilos de músculos.
O que chamou a atenção dos dois guardas da marinha foi o fato de aquele gorila estar carregando na mão esquerda uma maleta de executivo e, na direita, uma metralhadora.
Isso não era muito normal e eles, por obrigação, comunicaram o fato ás autoridades portuárias, que imediatamente tomaram as devidas providências no sentido de investigar um pouco melhor a respeito do pessoal que estava naquele iate.
Porém, não foi preciso iniciarem as investigações. Á noite, o noticiário televisivo falava do negócio que estavam sendo realizado ali em Ubatuba, com Josias Nunes adquirindo por oitocentos e cinquenta milhões de reais os dois hotéis de Ubatuba: oHotel Saint Hotel e o Ubatuba Central Palace Hotel. À vista.
Imediatamente a curiosidade popular se ergueu, perguntando quem seria esse tal de Josias Nunes, dono de tanto dinheiro.
No dia seguinte, essa curiosidade transformou-se em estupefação quando soube que todos os hóspedes, dos dois hotéis, receberam de volta o dinheiro gasto até então, acrescido de uma indenização de vinte mil reias para cada um e um pedido formal para que se retirassem antes da hora do almoço.
Logo em seguida, as equipes de gerência de ambos os estabelecimentos foram substituídas por homens com todo o aspecto de serem altos executivos e que saíram do Aruanã.

- Sim - pensou Maruko Sueto, delegado de Polícia em Ubatuba - Há alguma coisa estranha nisso tudo!
Enquanto Maruko tentava descobrir alguma coisa a respeito daquele homem, a bordo do iate uma importante reunião estava acontecendo.
Sentado à cabeceira da mesa, Fernando Nunes, com cerca de trinta e cinco anos de idade e usando um cavanhaque pontudo, sorriu e circunvagando o olhar ao seu redor, disse:

- Muito bem... Começamos! Papai ficará contente quando souber disso! Os hotéis estão comprados, podemos iniciar a segunda parte do plano. Dentro de pouco tempo teremos os mais luxuosos cassinos do mundo!
Um homem, que estava sentado à sua frente, lembrou:

- Mas... e quanto à proibição do jogo no Brasil? Ainda não temos a autorização especial para o funcionamento do cassinos!

Os olhos do homem de cavanhaque brilharam e ele disse:

- Nós a teremos em mão muito em breve, Estevão. Não haverá empecilho que não consigamos vencer! De mais a mais, nós sabemos usar formas bem especiais para convencer os indecisos... Vamos começar a trabalhar. Agora, teremos de conseguir que o Congresso vote a favor dessa autorização de funcionamento. E vamos usar todos os meios necessários para isso!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Terminada a refeição, Sakura aboletou-se sobre os joelhos de Syaoran e pediu:

- Como conseguiu assumir tão perfeitamente a identidade do pobre Eriol? Como fez para levar uma vida de cidadão normal com o nome dele?

Syaoran respirou fundo e, depois de refletir alguns instantes, contou:

- Naquela noite fátidica, antes de ir à sua casa, abri a caixa que Eriol tinha feito questão de me dar, juntamente com o carro. Ali estavam todos os documentos dele, inclusive os escolares. Isso me possibilitaria recomeçar a vida, longe de Campo Grande, fazendo-me passar por ele. Lembra-se de como éramos parecidos?

Sakura anuiu com um sinal de cabeça e Syaoran continuou:

- Não encontrei nenhuma dificuldade quando decidi vender o carro e comprar outro. Muito menos, quando me matriculei para o vestibular, em Lavras. Daí em diante, foi só uma questão de me habituar com a nova identidade. Só que eu sabia que não poderia ficar muito tempo num único local,pois sempre havia a possibilidade de aparecer alguém que me conhecesse... da minha vida anterior... e tinha você... esboçou um sorriso e falou:

- Como você mesma disse, não era o momento para reencontrá-la. Poderia ser perigoso para você.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos e, ascendendo um cigarro, Syaoran disse:

- Agora, não quero mais me separar de você, meu amor. E se for preciso que eu me entregue à Justiça...

- Nada disso! - exclamou Sakura - Você não vai se entregar, de jeito nenhum!

Sakura beijou Syaoran com ardor e respondeu:

- Ninguém vai reclamar de nada meu amor... Eriol só tinha os pais e estes voltaram para a Inglaterra depois de vender todas as propriedades. Ninguém mais teve notícias deles. Até acho que já morreram, pois quando partira, ambos não estavam bem de saúde. Quando à morte de Emerson, ninguém terá interesse nenhum em reabrir o caso, pode acreditar. Acho que a única coisa que terá de fazer é não voltar para Campo Grande tão cedo...

Com um sorriso, Syaoran murmurou:

- Isso eu tenho feito. Já perdi negócios bem lucrativos porque me neguei a ir para lá. E pode acreditar que foi muito complicado encontrar desculpas para dar ao meu sócio...

Ergueu os olhos para Sakura e perguntou:

- Quer dizer que você acha que eu devo continuar como Eriol Hiiragizawa? Devo definitivamente esquecer quem sou?

- E não era exatamente isso que você pretendia naquela noite? - inquiriu Sakura - É o que fez durante estes dez últimos anos, inclusive esquecendo de mim...

- Isso não! - negou Syaoran - Jamais a esqueci! Só que, diferentemente de você, eu já não tinha mais esperanças de reencontrá-la!

Os dois se beijaram apaixonadamente e Sakura falou:

- Há tantos segredos neste mundo... segredos que implicam na felicidade de algumas, se não de muitas pessoas! No nosso caso, o segredo só poderá trazer felicidade, querido!

Sorriu, encostou a cabeça no ombro da Syaoran e murmurou:

- Para mim será mais difícil...

Espantado, Syaoran perguntou:

- Difícil?: mas o que será mais difícil?

- Cada vez que eu tiver de chamá-lo por Eriol, estarei lembrando do nosso amigo.

Levantando-se e deixando cair o roupão que estava usando, disse:

- Ele era bonzinho... mas era muito feio!

Puxando o rapaz para o quarto, finalizou:

- Mas pode estar certo que saberei separar as coisas, querido. Cada vez que estivermos juntos... para isto... você continuará a ser o meu Syaoran! E quando for para outras coisas, ou quando eu estiver brava com você, será Eriol!

~Fim~




O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Não está feliz por eu tê-lo encontrado: - indagou Sakura, por sua vez - Meu retorno atrapalha sua vida?

Na realidade, o fato de Sakura tê-lo encontrado poderia representar não apenas um obstáculo, mas sim o fim de tudo.

- Não, minha amada - respondeu ele - Ainda que não saiba o que farei de hoje em diante...!

Abraçou-a mais uma vez e acrescentou:

- Mas sei o que vou fazer hoje... E acredite que sonhei com isso durante todos esse anos!

Sorrindo, Sakura encostou-se muito a ele e , começando a lhe desabotoar a camisa, disse:

- Também senti muito a sua falta, Syaoran... E, depois que passou o primeiro ano, achei que nunca mais iria vê-lo.

Beijou-o novamente e, com um movimento sensual do corpo, fez escorregar para o chão o vestido, e falou:

- Comecei a juntar as peças do que-cabeça quando vi o nome de Eriol na relação de formandos da Universidade de Lavras.

Deixando-se levar para a cama, pediu:

- Mas vamos guardar as explicações para depois... Agora, pelo amor de Deus, deixe-me matar as saudades! Deixe-me amá-lo como antes, caso contrário acho que sou capaz de morrer de desejo!

Passava de três horas da tarde quando o serviço de quarto trouxe para o flat a moqueca que eles tinham pedido.

- Quando vi o nome de Eriol Hiiragizawa, num primeiro momento, não o associei ao nosso amigo que morrera de leucemia. Porém, instantes depois, percebi que não poderia ser o caso de um homônimo. Era muito estranho, seria coincidência demais... Eriol era um ano mais velho e, quando morreu, estava no terceiro ano de engenharia civil, na Politécnica de São Paulo. Como poderia estar formando - e com quase três anos de atraso - em engenharia florestal, na Universidade de Lavras?

Serviu o prato de Syaoran e continuou:

- Tive vontade de ir imediatamente para Lavras e fazer algumas perguntas para o pessoal da faculdade. Porém, achei que não deveria me precipitar, pois poderia levantar suspeitas a seu respeito e isso , com certeza, seria prejudicial.

Com um sorriso, tomou um gole de vinho e explicou:

- Afinal, uma juíza fazendo perguntas sobre um engenheiro...

- juíza? - espantou-se Syaoran - Você é uma juíza?

- Sim - respondeu Sakura - Formei-me em Direito, prestei concurso para a magistratura e eis-me aqui... juíza Federal.

- Vai me denuncia, então? - perguntou Syaoran, em tom de brincadeira, mas sem conseguir esconder uma expressão preocupada no rosto.

- Eu vim prendê-lo, Syaoran - respondeu Sakura - Vim prendê-lo ao meu lado pelo resto da vida!

Curvando-se sobre a mesa, o roupão abrindo-se e deixando que Syaoran visse os seus seios, ela falou:

- Não há nada contra Eriol Hiiragizawa, a não ser o fato de ele estar morto há dez anos...

- O que não me exime do crime de falsidade ideológica, no mínimo - ponderou Syaoran.

- Isso é verdade - admitiu a moça - Mas também é verdade que um criminoso só está sujeito à pena depois de denunciado, processado e condenado. E você foi apenas denunciado... não houve processo, pois a cúpula do Fórum lá de Campo Grande achou que seria melhor negócio deixar morrer o caso.

Com a expressão consternada, Sakura disse:

- O juiz, o promotor e o delegado, através de testas-de-ferro e de manobras jurídicas, mas desonestas, acabaram ficando com a fazenda que foi do seu pai. E é claro que, para eles, o melhor era pôr uma pedra em cima do caso o mais depressa possível. Assim, a morte daquele salafrário chamado Emerson, e que tinha sido atribuída a você, ficou como mais um dos muitos casos de impunidade neste nosso país. Como ele não tinha família, o único interessado pelo promotor, sabia que não deveria se manifestar demais, tendo em vista que reavivar a ferida só poderia prejudicar seus planos.

Syaoran meneou afirmativamente a cabeça e Sakura continuou:

- Muitas e muitas vezes cheguei a ter vontade de falar o que eu sabia - ou que pelo menos desconfiava, com muita probabilidade de estar certa - sobre a sua falsa identidade. Seria uma maneira de tê-lo de volta, de assumir a sua defesa e, com quase certeza, de absorvê-lo. Porém, isso não aconteceria, em Campo Grande, O juiz talvez nem mesmo conseguisse condená-lo, mas certamente você morreria nas mãos do delegado para impedir que tivesse de devolver a fazenda. Assim, fiquei quieta e apenas limitei minha ação a mantê-lo sob minha vigilância.

Abriu um sorriso, serviu mais moqueca para Syaoran e falou:

- Acompanhei seus passos, ainda que à distancia. Resisti à tentação de fazer um contato direto antes da hora. Isso poderia ser perigoso, tanto para você como para mim.

- O que quer dizer com antes da hora? - perguntou Syaoran, intrigado - Você quer dizer que a hora chegou?

Sakura deixou que ele terminasse de encher o seu cálice de vinho e respondeu:

- Sim. A hora chegou, querido. Eu já não estava agüentando mais a sua ausência e... olhando intensamente para Syaoran, disse:

- Quando soube que você tinha montado uma empresa aqui em Vitória, comecei a mexer os meus pauzinhos e, depois de muita luta, consegui ser transferida para o Tribunal Federal do Espírito Santos...

continua no último capítulo...

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Depois, a vida seguiu seu curso para ambos. Eriol, o diploma na mão, poderia ter continuado em Lavras, na faculdade, como professor, poderia ter seguido uma carreira universitária que, com certeza seria de sucesso, tendo em vista a sua extrema competência e capacidade de esforços. Foi exatamente o que tinha feito Maruko.
Contudo, ele não tinha queria se estabelecer ali, já achava que o tempo de faculdade tinha sido de,ais para ficar num só lugar.

- Preciso de movimento - disse Eriol para Maruko, ao se despedir - Talvez um dia...

E partiu para o interior de Minas Gerais, para Grão Mogol, onde uma empresa de São Paulo estava iniciando uma fazenda de reflorestamento.
Foram três anos de sofrimento, de intenso conflitos consigo mesmo, pois ele não concordava com muitas das políticas da empresa, entre elas, aquela história de desmatar, para depois reflorestar.Porém, sempre fiel ao espírito japonês, tratou de sublimar os pontos negativos e procurou extrair, aprender o máximo possível dessa experiência.
Não foi em vão e, graças ao seu esforço e à competência adquirida ainda que à custa de suor e, muitas vezes, de lágrimas, foi contratado por uma concorrente da empresa de Grão Mogol e assumiu o posto de gerente de projetos numa fazenda que começava a desenvolver um extenso programa de reflorestamento com dendê, no sul do Pará.
Porém, apenas um mês depois, convencera-se de que aquela fazenda e o tal projeto, não eram nada mais do que a verdadeira sucursal do inferno...
Foram mais de três anos de tormentos, de sacrifícios inadmissíveis e de ver aconteceram coisas com que ele jamais poderia sonhar. Como, por exemplo, ver de perto o trabalho escravo, aqueles homens que iam ter à fazenda cheios de esperanças e que eram simplesmente jogados em alojamentos que sequer serviriam como pocilgas, com alimentação da pior qualidade, sem a menor assistência médica ou social... e sem receber um só tostão, pois o que teoricamente ganhavam era retido no armazém da fazenda e isso, quando não era para pagar a mudança para lá. Eriol soube de casos de trabalhadores que ali se encontravam havia já mais de um ano e ainda estavam pagando o próprio transporte - num pau-de-arara - de sua cidade no sul da Bahia, para a fazenda.
Evidente, movido por um espírito de justiça, ele reclamara junto à administração e ouvira, dias depois, um engenheiro mais velho, mais calejado, aconselhar-lhe:

- Japa, lembre-se que em boca fechada não entra mosca... E nunca esqueça que os rios desta região estão cheios de piranhas...

Eriol entendera o recado, tanto assim que nunca mais disse nada e passou a contar os dias até que chegasse a sua demissão, o que aconteceu somente trinta e cinco meses depois.
Uma vez alforriado, Eriol decidiu que não teria mais patrão.
Havia já algum tempo, seu antigo colega de faculdade, Maruko, vinha insistindo em chamá-lo para montarem uma empresa de consultoria especializada em manejo eco-sustentável de florestas.

- Temos de aproveitar a onda! - disse Maruko - Esse é um negócio que vai dar muito dinheiro e, ainda por cima, é uma atividade fundamental para a permanência da vida sobre o planeta!

Eriol resolveu aceitar, desde que essa empresa fosse em qualquer lugar que não fosse Lavras. Não disse para o amigo, mas o motivo era um só:não queria voltar a se encontrar com Akenia.
E, assim, cerca de um ano depois, eles estavam instalados em Vitória, com o Sueto & Hiiragizawa Consultoria devidamente funcionando numa bonita casa do Jardim da Penha, bem perto do Aeroporto de Goiabeiras.
Foi se vestir. Surpreendeu-se ao perceber que escolhia as roupas que ia usar com muito mais cuidado do que de hábito e não pôde deixar de lembrar, quando aparecia na casa dela, depois de um dia de intenso trabalho na fazenda:

- Você não pode andar pela cidade vestido dessa maneira! Não pode vir ao centro com a mesma roupa que usou para curar o gado!

E ele respondia:

- Se passasse em casa para tomar banho e trocar de roupas, demoraria mais para chegar aqui... E perder um minuto de sua companhia parece ser o mesmo que perder um ano inteiro de vida!

Assim, por exigência dela, passara a manter um guarda-roupa na casa da moça. Nem por isso, deixara de chegar sem tomar banho...

- Tomar banho com você é muito melhor - justificou - Você pode esfregar minhas costas e, além disso...

Era justamente o além disso que os entusiasmava e lhes trazia felicidade.

- Ela não poderia ter esse mesmo tipo de queixa...

Tomou um café, acendeu um cigarro e deixou-se cair sobre o sofá da pequena e bem decorada sala do flat, pensando:

- Talvez fosse melhor se eu estivesse ficado com ela...

Bateu a cinza e murmurou:

- Não teria passado tantos momentos de solidão, não teria pensado tantas vezes em desistir...

Levantou-se, deu alguns passos pela sala, sentia-se como um leão enjaulado, impaciente, agitado, contando os minutos.
Percebeu-se ansiado pelo encontro. Dez anos!

- Se as coisas tivessem ocorrido normalmente, com certeza já teríamos alguns filhos - falou, surpreendo-se com o som da própria voz.

Era quase meio-dia quando a campainha da porta soou e ele correu a atender.
Ela estava ali. Ainda mais bonita e desejável do que dez anos atrás. Seus cabelos louros e muito estavam soltos, caindo-lhe sobre os ombros, seu corpo não mostrava ter sentido o passar daquela década, e seu rosto...
Havia uma expressão de felicidade e, ao mesmo tempo, um brilho de ansiedade em seus olhos.
O engenheiro não se conteve mais, abraçou-a com efusão e beijou-a. Primeiro, em ambas as faces e depois sobre os lábios.
Aqueles mesmos lábios sensuais que ele conhecera e que tentara, durante dez anos, esquecer.

- Você não mudou nada, Eriol - disse ela, retribuindo o beijo com ardor - Ou será que posso chamá-lo se... Syaoran?

- E você... está ainda mais bonita com os cabelos tingidos, Sakura. Como me achou? - perguntou Syaoran, puxando-a para dentro do flat.

continua no próximo capítulo...