domingo, 19 de outubro de 2008

Aruanã


O Aruanã - nome de um peixe alongado e cheio de espinhas dos rios da região do Araguaia - estava ancorado a duzentas braças da marinha do Hotel Saint Maurice, em Ubatuba. Era uma embarcação que mostrava claramente o poderio econômico de seu proprietário e parecia um enfeite para a já tão bonita paisagem.
Nas marinhas destinadas a milionários, ninguém acha estranho que os ocupantes de um barco decidam permanecer a bordo, sem praticamente não irem à terra.
Esses milionários exigem a mais absoluta privacidade. Não querem saber quem está no barco ao lado e, em contrapartida, não desejam que saibam que estão ali.
Assim, ninguém na marinha achou anormal quando o comandante do Aruanã anunciou pelo rádio que seus patrões não queriam ser incomodados.

- Mas há uma vistoria de rotina da Polícia Marítima - avisou o gerente da marinha.

- A polícia pode subir a bordo, mas ninguém mais - disse o comandante.

Dessa forma, na tarde em que ele atracou, os homens da Polícia Marítima procederam à sua vistoria, constataram que nada havia que despertasse qualquer suspeitas e foram embora.
Durante a semana que se seguiu, ninguém desceu do barco. No entardecer do oitavo dia o comandante veio para terra. A lancha de doze pés que o iate carregava encostou no pier, deixando o comandante e mais um tripulante, um homem que parecia ser o elo entre a evolução do gorila e do Homo sapiens, com mais de um metro e noventa de altura e no mínimo cento e cinquenta quilos de músculos.
O que chamou a atenção dos dois guardas da marinha foi o fato de aquele gorila estar carregando na mão esquerda uma maleta de executivo e, na direita, uma metralhadora.
Isso não era muito normal e eles, por obrigação, comunicaram o fato ás autoridades portuárias, que imediatamente tomaram as devidas providências no sentido de investigar um pouco melhor a respeito do pessoal que estava naquele iate.
Porém, não foi preciso iniciarem as investigações. Á noite, o noticiário televisivo falava do negócio que estavam sendo realizado ali em Ubatuba, com Josias Nunes adquirindo por oitocentos e cinquenta milhões de reais os dois hotéis de Ubatuba: oHotel Saint Hotel e o Ubatuba Central Palace Hotel. À vista.
Imediatamente a curiosidade popular se ergueu, perguntando quem seria esse tal de Josias Nunes, dono de tanto dinheiro.
No dia seguinte, essa curiosidade transformou-se em estupefação quando soube que todos os hóspedes, dos dois hotéis, receberam de volta o dinheiro gasto até então, acrescido de uma indenização de vinte mil reias para cada um e um pedido formal para que se retirassem antes da hora do almoço.
Logo em seguida, as equipes de gerência de ambos os estabelecimentos foram substituídas por homens com todo o aspecto de serem altos executivos e que saíram do Aruanã.

- Sim - pensou Maruko Sueto, delegado de Polícia em Ubatuba - Há alguma coisa estranha nisso tudo!
Enquanto Maruko tentava descobrir alguma coisa a respeito daquele homem, a bordo do iate uma importante reunião estava acontecendo.
Sentado à cabeceira da mesa, Fernando Nunes, com cerca de trinta e cinco anos de idade e usando um cavanhaque pontudo, sorriu e circunvagando o olhar ao seu redor, disse:

- Muito bem... Começamos! Papai ficará contente quando souber disso! Os hotéis estão comprados, podemos iniciar a segunda parte do plano. Dentro de pouco tempo teremos os mais luxuosos cassinos do mundo!
Um homem, que estava sentado à sua frente, lembrou:

- Mas... e quanto à proibição do jogo no Brasil? Ainda não temos a autorização especial para o funcionamento do cassinos!

Os olhos do homem de cavanhaque brilharam e ele disse:

- Nós a teremos em mão muito em breve, Estevão. Não haverá empecilho que não consigamos vencer! De mais a mais, nós sabemos usar formas bem especiais para convencer os indecisos... Vamos começar a trabalhar. Agora, teremos de conseguir que o Congresso vote a favor dessa autorização de funcionamento. E vamos usar todos os meios necessários para isso!

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