
Eriol, chefe de operações da Polícia Federal em Brasília disse, desanimado:
- Acho que teremos problemas com esse caso...
O delegado especial Syaoran Li, sentado diante de Eriol, sorriu.
- Há muito dinheiro envolvido - disse ele - É bem provável...
- Leu os relatórios? - perguntou Eriol.
- Sim - respondeu Syaoran.
Eriol ajeitou os óculos, acendeu um cigarro e falou:
- Vamos recapitular...
Soltou uma baforada para o teto, apanhou uma folha de papel para rabiscar enquanto falava - uma velha mania que tinha e que já lhe custara uma pequena fortuna em psicoterapias - e começou:
- Maruko Sueto, delegado de Polícia em Ubatuba, achou que merecia investigar a respeito de um imenso derramamento de dinheiro em sua cidade.
Riscou algumas flechas no papel - seu psiquiatra costumava dizer que isso era apenas uma manifestação de libido, um símbolo fálico reprimido - e prosseguiu:
- Ele estranhou que um grupo estivesse com tanto dinheiro a bordo de um iate ancorado na marinha do Hotel Saint Maurice. Telefonou para nós perguntando sobre o seu proprietário, Josias Nunes. O pessoal do computador encontrou mais de cem registros, nenhum deles com coisa alguma que possibilitasse a posse de tantos milhões. Pusemos nossos rastreadores em campo para investigar a vida de um por um desses Nunes. Nada foi encontrado de anormal. Imaginamos, então, que esse indivíduo poderia não ser brasileiro, mas nem por aí tivemos alguma luz sobre o caso. Eriol ficou em silencio por alguns segundos, desenhou um violão - que para o seu psiquiatra, significava o desejo subconsciente de prazeres sexuais recalcados e não realizados - e, fixando o olhar em Syaoran, prosseguiu:
- Contatamos a Receita Federal. Inutilmente. Não há nada a respeito de nenhum Nunes que tenha uma fortuna tão grande a ponto de poder efetuar negócio dessa monta.
Apanhando um outra folha em branco, começou a desenhar uma paisagem de montanhas cujos contornos assemelhavam-se aos seios nus de uma mulher. Para o psiquiatra, ele estava manifestando insegurança e desejo de voltar ao colo materno, era um regresso subconsciente à fase oral de seu desenvolvimento e uma necessidade reprimida de carinho feminino, de contato físico com os seios nus de uma mulher. Eriol desistira das sessões de terapia.
Sacudiu a cabeça afastando aquelas lembranças, e continuou o seu ralato:
- Descobrimos que as compras tinham sido efetuadas em nome de um homem, um tal de Fernando Vicente Nunes, filho de Josias Nunes. Os dois negócios foram realizadas no mês de Julho. Já estamos em Agosto e ainda não conseguimos nenhum progresso nas investigações.
Olhando para o chefe, Syaoran perguntou:
- O que quer que eu faça?
- Não sei - respondeu ele - Recebi hoje um pedido de alguns deputados, solicitando informações a respeito desse homem e de sua companhia, uma vez que eles deverão autorizar o jogo nesse hotéis de Ubatuba. Meia hora após eu ter lido essa solicitação, recebi um e-mail assinado por Fujitaka Kinomoto, deputada da oposição que praticamente ordenava a suspensão de toda e qualquer investigação a esse respeito!
Syaoran arregalou os olhos, dizendo:
- É estranhos... Conheço o deputado Kinomoto e acho incrível ela fazer uma coisa dessas! Ele é formalmente contra o jogo! Não creio que Kinomoto tenha feito uma coisa dessas por sua vontade!
Eriol olhou para Syaoran e indagou:
- Acha que Kinomoto esteja sendo pressionada?
- Pode ser - falou Syaoran, após alguns segundos - Alguma coisa está acontecendo e é preciso investigar, descobrir de onde vem tanto dinheiro e quais são as verdadeiras intenções dessas pessoas que estão investindo tão alto em Ubatuba. Isso cheira a lavagem de dinheiro... Por fim, é preciso saber o que está acontecendo com Kinomoto para fazê-la mudar tão radicalmente de opinião a respeito de jogo. E vou encontrar as respostas!
Eriol sorriu. Syaoran Li era o seu delegado predileto. Conhecia-o desde os bancos de faculdade e sabia que Syaoran era um indivíduo teimoso, persistente, muito inteligente e incorruptível, mesmo porque ele era a última pessoa do mundo a precisar do que ganhava como delegado da Polícia Federal...
Neto de imigrantes chineses que chegaram na segunda leva de imigração, em 1912, era herdeiro de milhares de hectares de terras no norte do Estado de São Paulo e dono de dezenas de milhares de reses. Sua renda pessoal era incomensuravelmente maior do que cinquenta vezes o salário de seu próprio chefe.
Só tinha um defeito: não podia ver uma mulher bonita. Se é que isso pode ser classificado de defeito...
- Não esperava outra coisa de você, Syaoran - disse Eriol, apertando a mão do delegado - E, por favor, comece imediatamente!
Syaoran anuiu com a cabeça e, nesse momento, a secretária de Eriol entrou na sala e disse:
- Sinto muito interromper, doutor Eriol, mas ela disse que é extremamente urgente e, de mais a mais, é a filha de uma deputada importante.
Sem esperar mais, a secretária sorriu e voltou-se para a porta, falou:
- Senhorita Kinomoto... Faça o favor de entrar!
continua no próximo capítulo...
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