segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Aruanã


A bordo do Aruanã, Juan Maria Escobar, sobrinho de Pablo Escobar e um dos mais importantes líderes do Cartel de Medellin, olhou para Fernando e disse:

- Agora, temos de conseguir a liberação do jogo em nossos dois casinos!

- Isto está complicado - ponderou Nunes - Pensei que seria mais fácil conseguir que esses deputados votassem a favor. Porém, há uma fatia de parlamentares liderados por Fujitaka Kinomoto que está contra. Às vezes, penso que teria sido melhor se tivéssemos tomado outro caminho!

Escobar meneou negativamente a cabeça e falou:

- Não. O melhor caminho é esse e precisamos da liberação do jogo antes do começo do verão!

Nunes sabia que quando as férias começassem nas universidades e o movimento de turistas se aquecesse, os rendimentos do grupo seriam muito grandes e haveria uma necessidade premente do negócio mais lucrativo de todos os tempos: o tráfico de cocaína.

- Você sabe os métodos - continuou Escobar - Não perca tempo! Intimide esses deputados! Por que não começa pelo chefe de polícia de Ubatuba? Ele andou fazendo muitas perguntas à Polícia Federal a respeito das origens do nosso dinheiro. Mostre que não é saudável mexer conosco! E esse deputado, o Kinomoto? Ele precisa ser convencido a votar a nosso favor!

- Não se preocupe, Escobar - disse Nunes - Sei muito bem como agir! Lembre-se que aprendi tudo isso com meu pai, Josias Nunes!

Escobar riu alto.

- Você tem razão! Josias foi o maior de todos! Era invencível com os seus métodos de convencimento! Nunca tivemos o menor problema quando ele entrava em ação! Foi uma pena que ele tenha decidido se juntar ao Cartel de Cali... Isso acabou por determinar a sua sentença de morte!

Fernando olhou para as suas mãos. Tinha sido ele mesmo, o próprio filho de Josias, o matador incubido de eliminar Josias e de modo a apenas ele e Escobar ficarem sabendo dessa morte. Envenenara-o e sumira com o cadáver para que todos os subordinados - e clientes - pesassem que ele simplesmente estava doente, em tratamento na Suíça. Josias Nunes morrera e Fernando assumira o seu lugar.
Os dois jornalistas deixaram a sala de Maruko ás dez e meia da manhã, decepcionados, mas nem por causa disso, sem esperanças.
Tinha sido uma entrevista difícil, pois Maruko não dispunha de muitas informações para dar, uma vez que, na verdade, ainda não tinha sido cometido nenhum crime. Havia, apenas, um cheiro de encrenca no ar.
Era evidente que ninguém compraria dois hotéis de alto luxo pagando uma fábula À vista, com o objetivo de transformá-los em cassinos num país em que o jogo é proibido! Ali tinha de haver algo por trás!

- Vamos publicar o que temos e faremos algumas considerações a respeito do caso - Disse Yamazaki para seu companheiro, Yukito.

Assim fizeram. Na capa da edição da tarde, em letras garrafais, vinha escrito:

NEGÓCIO SUSPEITO
Há uma trama por trás da compra
dos Hotéis e nossas autoridades não
estão percebendo o que se passa!

No restante do texto os jornalistas faziam perguntas a respeito da origem do dinheiro e prometiam uma investigação por parte da imprensa. O nome de Maruko era citado diversas vezes e algumas frases e considerações que o delegado tinha feito vinham entre aspas, mostrando que eram a transcrição de suas próprias palavras.
Ora... Em Ubatuba não se falava em outro coisa que não fosse naquele negócio. Logo, era de esperar que os jornais que tocassem nesse assunto esgotassem completamente as suas edições e, para Nunes, essa publicidade em torno do negócio que tinham feito, e especialmente as considerações não eram convenientes. Não havia interesse para eles que a opinião pública começasse a formar uma corrente contrária à liberação do jogo naqueles hotéis.
Por outro lado, chamar a atenção para a origem do dinheiro utilizado naquela compra, era perigoso. Portanto, era preciso secar a fonte de problemas em potencial...
Na tarde daquela quinta-feira, os dois repórteres, Yamazaki e Yukito, saíram da redação do Notícias de Ubatuba para fazer uma cobertura jornalística de um concurso literário na Biblioteca Municipal.
À direção do velho "Opala" de cor imprecisa, Yukito falou para o companheiro:

- Quando voltarmos desse concurso, vou ligar de novo para a Polícia Federal. Quem sabe teremos alguma novidade.

Yukito contornou o trevo de entrada na BR-101 e, nesse momento, um "Honda Civic" vermelho emparelhou com ele pelo lado esquerdo.
Na esquina, um pedestre presenciou a cena e, quando a polícia o interrogou, disse:

- O homem que estava no assento do carona do "Honda", jogou para o interior do "Opala"alguma coisa do tamanho de um maço de cigarros. O "Honda" arrancou e o "Opala" explodiu.

Maruko estava em seu dia de folga quando recebeu a notícia da morte dos dois jornalistas.

- Não são aqueles dois que o entrevistaram? - perguntou Akenia, sua esposa.

- Sim - respondeu Maruko - E não gostei da reportagem. Achei que eles foram longe demais em suas suposições! Mas eu estava enganado... Eles não foram longe demais. Simplesmente acertaram em cheio!

- Acha que essas mortes têm a ver com o negócio dos hotéis? - ingadou Akenia, preocupada.

- Sim, é possível - murmurou Maruko.

- Você também fez suposições! E isso pode ser perigoso! - ponderou Akenia, com expressão aterrorizada.

Maruko abraçou a esposa e disse:

- Acho que você não precisa se preocupar... Não podemos simplesmente achar que esses milionários...

Akenia olhou para o marido e interrompeu:

- O que será que eles pretendem, afinal?

- Minha função não é espetacular sobre negócios, querida - falou ele - Enquanto esses homens não transgredirem algum parágrafo da lei, eu não poderei fazer nada contra eles!

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes e fechando o saco de lixo, Maruko disse:

- Vou legar o lixo para fora.

Apanhou o saco e foi para a caçada, onde ficava a cesta de lixo. Da porta, Akenia viu o caminhão do lixo aparecer. Estranhou que ele estivesse andando tão rápido, mas achou que o motorista estivesse com pressa de recolher o seu lixo.
Tarde demais o delegado e Akenia perceberam que o homem que estava de pé no estribo do caminhão, estava usando terno e gravata. E, em sua mão avia uma metralhadora.
Maruko ainda tentou escapar, jogando-se ao chão e rolando para baixo de um automóvel que estava estacionado ali, mas não teve tempo. Com duas rajadas curtas, o homem atingiu-o, fazendo seu corpo sacudir com os impactos das balas, matando-o. Akenia correu para o marido, gritando desesperadamente. O bandido trocou o carregador da arma e fez fogo novamente, desta vez mais longamente, fazendo com que pelo menos dez balas entrassem no corpo de Akenia, jogando-a no chão, já transformada em cadáver.

Continua no próximo capítulo...

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