quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Voltando para a fazenda de seus pais, a bonita fazenda da Saltinho, na zona rural de Campo Grande e na saída para Ribas do Rio Pardo, já à direção do seu carro que fora de seu amigo, Syaoran Li não conseguia tirar de sua mente as imagens daquele trágico últimos dois meses, desde que a leucemia fora descoberta.

Na verdade, ele desconfiara que alguma coisa não estava bem com o amigo a partir do momento em que este rompera o noivado com Tomoyo Daidouji, sua irmã. Evidentemente, Syaoran foi perguntar para ele a razão do rompimento e recebera apenas evasivas pouco convincentes como respostas. Foi só depois de ameacá-lo de nunca mais querer sequer vê-lo, que o amigo contara a verdade:

- Estou com leucemia, Syaoran. Grave. Já em fase terminal. Não sei nem mesmo se conseguirei viver mais uma semana, ou mais um mês, mas tenho certeza que não verei chegar o inverno. Por isso, rompi com a sua irmã. Não acho justo prendê-la, não quero que ela se sinta uma viúva antes mesmo de casar. E não quero que você diga para ela. Deixe-a pensar que eu simplesmente desisti de me casar. Conheço Tomoyo muito bem, e sei que ela sofrerá muito mais se souber que o motivo do rompimento é a minha doença. Ficará mais fácil para restaurar a vida se não tiver conhecimento da verdade.

- Ela ficará com raiva de você - ponderou Syaoran - Não vejo nenhuma necessidade...

- Por favor, faça como estou pedindo - interrompeu o outro - Não conte nada! Como prova de nossa amizade, não conte a verdade para Tomoyo!

Syaoran não concordara com a atitude do amigo, nem com suas palavras. Achava que a irmã tinha que saber a verdade e, assim, revelou-lhe o segredo, acrescentando:

- Ele pediu que não lhe contasse. Mas acho que, no fundo, ele vai gostar de ter o seu apoio, vai gostar de sentir o seu carinho.

Chorando Tomoyo disse:

- Você tem razão, Syaoran. Num momento como este, eu seria a mais egoísta das mulheres se não ficasse ao lado de meu noivo até o fim! Pode ser muito nobre a atitude dele, mas não é a melhor! Ele precisa de mim, precisa de meus cuidados! A mãe dele já está muito velha e a dor que deve estar sentindo, certamente está lhe tolhendo as ações... Eles, a família, precisam de mim!

Naquele mesmo dia, Tomoyo foi visitar o rapaz, usando a aliança de noivado.

- Syaoran me contou - falou ela - Não fique zangado com ele. Nós todos sabemos que você precisa sentir-se apoiado, querido... E eu o amo muito, você sabe disso! E, a partir dessa sua tentativa de querer me poupar o sofrimento, passei a amá-lo mais ainda!

Lembrando-se daqueles episódios e lutando contra as lágrimas que insistiam em lhe escorrer pelas faces, Syaoran chegou, finalmente à casa de seus pais.

Estranhou ao ver a porteira aberta, coisa que jamais acontecia, ainda mais àquela hora da noite.

- Engraçado... - murmurou ele, ao fechar a porteira depois de passar - Meu pai nunca a deixa aberta...

Estacionou diante da varanda da casa e, novamente, achou esquisito que a porta de entrada estivesse escancarada.
Já terrivelmente preocupado, imaginando que a casa tivesse sido assaltada ou que tivesse acontecido algo ainda mais grave, ele entrou.
A primeira coisa que viu foi sua mãe, estendida no chão, com a garganta aberta por um golpe de faca. Ao seu lado seu irmão menor também estava caído,com a marca de uma facada sobre o coração.
Controlando-se da melhor maneira que podia, abaixou-se e constatou que nada mais poderia fazer por eles e, erguendo-se, em passos rápidos passou para o corredor que levava aos quartos.
Seu pai ali estava, caído de costas contra a parede, ainda segurando o revólver. Em sua testa, um feio orifício sangrento mostrava de que forma a vida tinha lhe fugido do corpo. Sem titubear, Syaoran apanhou o revólver da mão do pai e conferiu sua carga: havia seis balas intactas no tambor. Portanto, ele não tinha conseguido disparar um só tiro.
Foi neste momento que ele o gemido.
De um salto, entrou no quarto de Tomoyo e viu-a estendida sobre a cama, nua, o sangue escorrendo a cada vez que ela respirava, por uma perfuração do lado direito de seu peito.

- Tomoyo! - gritou ele correndo para tentar ajudá-la - Mas o que aconteceu?

Tomoyo moveu lentamente os olhos e fitou o irmão. Seus lábios esticaram-se debilmente num sorriso e ela murmurou:

- Você chegou, Syaoran... Mas acho que já é tarde demais...

Syaoran ajoelhou-se ao lado da irmã e esta, num esforço quase sobre-humano, disse:

- Foi o Emerson... O escrivão da delegacia... Ele queria o dinheiro do pagamento dos empregados... Não o achou... Então matou todo mundo e... me estuprou...

Tomoyo tossiu, fez uma careta de dor, tossiu novamente e deixou escapar uma golfada de sangue.

- Vou chamar uma ambulância, Tomoyo! - quase gritou Syaoran - Agüente firme! Você vai ficar boa!

Mas isso não viria a acontecer. Tomoyo soltou outra golfada de sangue, seus olhos se reviraram, ela teve uma convulsão e... mergulhou nas trevas da morte.

sábado, 16 de agosto de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Fique com isso - pediu o moribundo para seu amigo, Syaoran Li - Não precisarei mais e sei que essas coisas poderão ser úteis a você...

Li sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Quis dizer que ele não deveria falar assim, que tinha de ter esperanças, afinal de contas a medicina progredira muito nas últimas décadas e, de repente, algum procedimento novo poderia salvá-lo. Porém, sua voz ficou presa na garganta e ele não conseguiu pronunciar nenhuma palavra.

Com muito esforço, o doente continuou:

- Também quero que fique com o meu jipe... Você sempre gostou dele e é outra coisa que não usarei mais...
- Não diga isso - falou Syaoran - Você vai sarar! Vai sarar e ainda vai dirigir por muitos anos o seu carro!
- Não - murmurou o outro - Você sabe que não, tanto quanto eu mesmo. Ainda se tivéssemos descoberto esta leucemia a tempo... Mas não! Só percebi que estava doente quando já era muito tarde... Agora não tem mais jeito, Syaoran... Vou morrer e isso não vai demorar muito!

Syaoran não conseguiu mais se controlar e irrompeu num pranto convulso, dolorido, as lágrimas escorrendo-lhe dos olhos e os ombros sacudindo-se com os soluços.

- Vou levar para o túmulo lembranças muito boas de nossa amizade...

Syaoran se esforçou de maneira quase titânica para se controlar e murmurou:

- É verdade... Vivemos momentos muitos bons...

Esboçou um sorriso triste e perguntou:

- Lembra-se daquele baile, quando contamos para as meninas que você era o meu irmão mais velho? Todos acreditaram e, ainda por cima, disseram que éramos muitos parecidos!

A mão que Syaoran estava segurando, de repente, tornou-se mole, a já débil pressão que os dedos desapareceu por completo.

Syaoran percebeu que o amigo não estava respirando mais... Seus olhos fecharam-se para sempre.

Sentiu que alguém pousava a mão sobre o seu ombro direito e, já chorava outra vez, viu por entre as lágrimas que lhe toldavam a visão, a figura do pai de seu amigo que lhe dizia:

- Ele morreu, Syaoran... Descansou, finalmente, terminaram seus sofrimentos.

Obrigando o rapaz a se levantar, acrescentou:

- Por favor, cumpra suas últimas vontades. Apanhe a caixa que lhe deu e fique com o jipe. Sei que, onde quer que ele esteja , ficará feliz sabendo que você aceitou o presente.