terça-feira, 11 de novembro de 2008

Aruanã


Sakura Kinomoto entrou na sala de Eriol e, um pouco sem jeito, sorriu.

- Desculpe a intromissão, doutor - disse ela - Sou filha do deputado Kinomoto e achei que seria melhor eu procurar diretamente a Polícia Federal.

Syaoran, como sempre cavalheiro com as mulheres bonitas, apressou-se em puxar uma cadeira para a moça e disse:

- Fez bem, moça. Vamos ajudá-la!

Sakura sorriu, agradeceu com um aceno de cabeça e disse:

- Estou chegando diretamente de Paris e...

De repente ela parou de falar e entrou num pranto convulso.
Ajoelhando-se ao seu lado, Syaoran acariciou seus cabelos e perguntou:

- Mas o que está acontecendo? Por que tanto desespero?

Ela respirou fundo, procurou se controlar e, com esforço, disse:

- Alguma coisa muito grave aconteceu para meu pai. Ele nunca deixaria de ir me apanhar no aeroporto e... Vejo o recado que ele deixou no balcão da Air France! E é a letra do meu pai!

Mostrou para Nogueira um pedaço de papel onde, escrito a mão, estava escrito:

VOLTE IMEDIATAMENTE PARA A FRANÇA. VOCÊ ESTÁ CORRENDO UM GRANDE PERIGO. EU A AMO. SEU PAI.

Eriol suspirou e, voltando-se para Syaoran, falou:

- Quando falamos que Fujitaka deveria estar sob alguma espécie de pressão, eu não estava errado...

Syaoran assentiu com um sinal de cabeça e, virando-se para Sakura, perguntou:

- Como conseguiu sair do aeroporto? Supondo que seu pai estivesse certo ao dizer que você está correndo perigo,é de imaginar que tentassem apanhá-la no aeroporto...

Sakura refletiu por alguns momentos e, abrindo um sorriso que a fazia ainda mais bonita, disse:

- Eu vim disfarçada de hippie, para brincar com meu pai. Depois que recebi o recado,rumei para um hotel vestida como estava, e me troquei antes de vir falar com vocês.

- Temos de localizar Kinomoto...- murmurou Syaoran.

Eriol pegou o telefone ordenando que procurassem o deputado e, cerca de dez minutos depois, desligou-o dizendo:

- Kinomoto não está em lugar nenhum! Sua secretária diz que ele está numa reunião na Câmara. Lá informam que ele está em sua residência e lá ninguém atende!

Chorando novamente, Sakura falou:

- Eu também tentei localizar meu pai e não consegui! Por isso acho que algo aconteceu com ele!

Os dois federais se entre olharam e Syaoran perguntou:

- Você tem certeza de não ter visto ninguém seguindo os seus passos até aqui, Sakura?

- Pelo menos não notei nada- respondeu ela- E procurei prestar bem atenção, pois após o recado deixado pelo papai...

Mas não é possível! - exclamou Nelson Soares - Como ela conseguiu escapar?

- Ora! - fez Márcio Telles, que estava sentado ao volante do automóvel - Ela só poderia estar disfarçada!

Soares ergueu os ombros aborrecido e murmurou:

- Agora,nós teremos um trabalho brutal para localizá-la aqui em Brasília...

- Sakura deve ter ido para um hotel - falou o outro - Ela não foi para casa, pois se tivesse feito isso nós saberíamos. Vamos pedir ajuda ao pessoal da infra-estrutura. Eles têm acesso aos terminais de computadores e poderão saber em que hotel ela se hospedou.

Soares concordou com o companheiro e, apanhando o celular, fez uma ligação. Menos de quinze minutos depois, recebia uma chamada de volta dizendo que a moça tinha estado no Hotel Nacional, mas que, naquele momento, não estava no local.

- Há um dado interessante - falou o homem da infra-estrutura - Durante as duas horas que esteve no hotel, ela pediu para falar com a Polícia Federal por duas vezes, mas por um desses acasos, não conseguiu. A recepcionista disse que é muito provável que ela tenha ido para lá...

Aruanã


Veja bem, Fujitaka - falou o também deputado Manoel Rosa - Eu não sou favorável. Mas recebi um chamado de Ubatuba, esta manhã, O tal Nunes disse-me que nenhum de nós se arrependeria se votássemos a favor da autorização.

- Você está querendo dizer que vai receber dinheiro para isso? - perguntou Kinomoto, com voz rascante.

Manoel ficou ruborizado e respondeu:

- Não é assim... Não sou corrupto, e você sabe disso. Mas preciso do apoio dos eleitores! E não acho que eles sejam contra o jogo em dois hotéis bem específicos, em Ubatuba! De mais a mais, creio que um pouco de dinheiro por ocasião das novas eleições seria muito bom!

Kinomoto não retrucou. Limitou-se a levantar-se, mostrando claramente que não tinha mais nada a dizer ou ouvir. Ele não votaria a favor da autorização e faria campanha para que seus colegas também não votassem!

Não gosto disso - falou Escobar - As coisas pioraram! Não podemos fazer nada, pois não sabemos como vai ficar essa autorização para o jogo!

Nunes franziu as sobrancelhas. Ele sabia que não tinha culpa por as coisas não correrem exatamente como o esperado.

- Sim muito, Escobar - falou ele - Mas a compra desses hotéis não saiu de minha cabeça e sim da cabeça de vocês! Eu teria encontrado uma maneira mais simples de lavar esse dinheiro!

Escobar empalideceu. Não estava acostumado a ser contestado por subordinados.
Por um breve momento, teve ímpetos de esbofetear aquele desaforado, mas sabia que tinha desse controlar e que não podia deixar que seus impulsos pusessem a perder todo o plano que tinha elaborado para lavar o dinheiro que estava prestes a entrar. E aos borbotões. Tudo teria de estar pronto já no início do verão! Porém, as coisas não estavam saindo como ele queria. A divulgação de uma suspeita, qualquer que fosse, antes de se começar a fazer funcionar os cassinos, seria prejudicial para todo o Cartel uma vez que dificultaria a maldita autorização de funcionamento. Ele esperava, a partir do início de Dezembro, faturamentos de cerca de quinhentos milhões de reias por semana somente dos turistas ali no Litoral Norte. Todo esse dinheiro tinha de ser colocado no mercado de uma maneira que parecesse ser oficial.
E nada melhor do que o jogo para se fazer esse tipo de negócio. Um cassino poderia render todo esse dinheiro sem que pudesse fazer muitas perguntas a respeito de sua origem.
Com um sorriso, esforçando-se ao extremo para parecer divertido, Escobar falou:

- Sim, Fernando... Sabemos disso. Infelizmente, acho que nós nos precipitamos um pouco. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado... Precisamos de você, Nunes... Por isso nós estamos investindo em sua pessoa. Mas em troca, você precisa nos ajudar.
Interessado, Nunes perguntou:

- E o que sugere, Escobar?

O colombiano refletiu por alguns instantes e, falou:

- Acho que está na hora de fazermos com que o maior responsável pelas dificuldades que estamos passando quanto a essa autorização de funcionamento se convença de que não é interessante para ele e sua família, continuar a ser uma pedra em nosso sapato!
Olhou torvamente para Nunes e, apanhou uma folha de papel de sua primeira gaveta, falou:

- Eis alguns dados importantes a respeito da vida de Fujitaka. Estude cuidadosamente essas informações. A partir de Agora, apresse-se. Lembre-se que contamos com você! Há muito dinheiro rolando nesse nosso negócio e não podemos perder!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Aruanã


A bordo do Aruanã, Juan Maria Escobar, sobrinho de Pablo Escobar e um dos mais importantes líderes do Cartel de Medellin, olhou para Fernando e disse:

- Agora, temos de conseguir a liberação do jogo em nossos dois casinos!

- Isto está complicado - ponderou Nunes - Pensei que seria mais fácil conseguir que esses deputados votassem a favor. Porém, há uma fatia de parlamentares liderados por Fujitaka Kinomoto que está contra. Às vezes, penso que teria sido melhor se tivéssemos tomado outro caminho!

Escobar meneou negativamente a cabeça e falou:

- Não. O melhor caminho é esse e precisamos da liberação do jogo antes do começo do verão!

Nunes sabia que quando as férias começassem nas universidades e o movimento de turistas se aquecesse, os rendimentos do grupo seriam muito grandes e haveria uma necessidade premente do negócio mais lucrativo de todos os tempos: o tráfico de cocaína.

- Você sabe os métodos - continuou Escobar - Não perca tempo! Intimide esses deputados! Por que não começa pelo chefe de polícia de Ubatuba? Ele andou fazendo muitas perguntas à Polícia Federal a respeito das origens do nosso dinheiro. Mostre que não é saudável mexer conosco! E esse deputado, o Kinomoto? Ele precisa ser convencido a votar a nosso favor!

- Não se preocupe, Escobar - disse Nunes - Sei muito bem como agir! Lembre-se que aprendi tudo isso com meu pai, Josias Nunes!

Escobar riu alto.

- Você tem razão! Josias foi o maior de todos! Era invencível com os seus métodos de convencimento! Nunca tivemos o menor problema quando ele entrava em ação! Foi uma pena que ele tenha decidido se juntar ao Cartel de Cali... Isso acabou por determinar a sua sentença de morte!

Fernando olhou para as suas mãos. Tinha sido ele mesmo, o próprio filho de Josias, o matador incubido de eliminar Josias e de modo a apenas ele e Escobar ficarem sabendo dessa morte. Envenenara-o e sumira com o cadáver para que todos os subordinados - e clientes - pesassem que ele simplesmente estava doente, em tratamento na Suíça. Josias Nunes morrera e Fernando assumira o seu lugar.
Os dois jornalistas deixaram a sala de Maruko ás dez e meia da manhã, decepcionados, mas nem por causa disso, sem esperanças.
Tinha sido uma entrevista difícil, pois Maruko não dispunha de muitas informações para dar, uma vez que, na verdade, ainda não tinha sido cometido nenhum crime. Havia, apenas, um cheiro de encrenca no ar.
Era evidente que ninguém compraria dois hotéis de alto luxo pagando uma fábula À vista, com o objetivo de transformá-los em cassinos num país em que o jogo é proibido! Ali tinha de haver algo por trás!

- Vamos publicar o que temos e faremos algumas considerações a respeito do caso - Disse Yamazaki para seu companheiro, Yukito.

Assim fizeram. Na capa da edição da tarde, em letras garrafais, vinha escrito:

NEGÓCIO SUSPEITO
Há uma trama por trás da compra
dos Hotéis e nossas autoridades não
estão percebendo o que se passa!

No restante do texto os jornalistas faziam perguntas a respeito da origem do dinheiro e prometiam uma investigação por parte da imprensa. O nome de Maruko era citado diversas vezes e algumas frases e considerações que o delegado tinha feito vinham entre aspas, mostrando que eram a transcrição de suas próprias palavras.
Ora... Em Ubatuba não se falava em outro coisa que não fosse naquele negócio. Logo, era de esperar que os jornais que tocassem nesse assunto esgotassem completamente as suas edições e, para Nunes, essa publicidade em torno do negócio que tinham feito, e especialmente as considerações não eram convenientes. Não havia interesse para eles que a opinião pública começasse a formar uma corrente contrária à liberação do jogo naqueles hotéis.
Por outro lado, chamar a atenção para a origem do dinheiro utilizado naquela compra, era perigoso. Portanto, era preciso secar a fonte de problemas em potencial...
Na tarde daquela quinta-feira, os dois repórteres, Yamazaki e Yukito, saíram da redação do Notícias de Ubatuba para fazer uma cobertura jornalística de um concurso literário na Biblioteca Municipal.
À direção do velho "Opala" de cor imprecisa, Yukito falou para o companheiro:

- Quando voltarmos desse concurso, vou ligar de novo para a Polícia Federal. Quem sabe teremos alguma novidade.

Yukito contornou o trevo de entrada na BR-101 e, nesse momento, um "Honda Civic" vermelho emparelhou com ele pelo lado esquerdo.
Na esquina, um pedestre presenciou a cena e, quando a polícia o interrogou, disse:

- O homem que estava no assento do carona do "Honda", jogou para o interior do "Opala"alguma coisa do tamanho de um maço de cigarros. O "Honda" arrancou e o "Opala" explodiu.

Maruko estava em seu dia de folga quando recebeu a notícia da morte dos dois jornalistas.

- Não são aqueles dois que o entrevistaram? - perguntou Akenia, sua esposa.

- Sim - respondeu Maruko - E não gostei da reportagem. Achei que eles foram longe demais em suas suposições! Mas eu estava enganado... Eles não foram longe demais. Simplesmente acertaram em cheio!

- Acha que essas mortes têm a ver com o negócio dos hotéis? - ingadou Akenia, preocupada.

- Sim, é possível - murmurou Maruko.

- Você também fez suposições! E isso pode ser perigoso! - ponderou Akenia, com expressão aterrorizada.

Maruko abraçou a esposa e disse:

- Acho que você não precisa se preocupar... Não podemos simplesmente achar que esses milionários...

Akenia olhou para o marido e interrompeu:

- O que será que eles pretendem, afinal?

- Minha função não é espetacular sobre negócios, querida - falou ele - Enquanto esses homens não transgredirem algum parágrafo da lei, eu não poderei fazer nada contra eles!

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes e fechando o saco de lixo, Maruko disse:

- Vou legar o lixo para fora.

Apanhou o saco e foi para a caçada, onde ficava a cesta de lixo. Da porta, Akenia viu o caminhão do lixo aparecer. Estranhou que ele estivesse andando tão rápido, mas achou que o motorista estivesse com pressa de recolher o seu lixo.
Tarde demais o delegado e Akenia perceberam que o homem que estava de pé no estribo do caminhão, estava usando terno e gravata. E, em sua mão avia uma metralhadora.
Maruko ainda tentou escapar, jogando-se ao chão e rolando para baixo de um automóvel que estava estacionado ali, mas não teve tempo. Com duas rajadas curtas, o homem atingiu-o, fazendo seu corpo sacudir com os impactos das balas, matando-o. Akenia correu para o marido, gritando desesperadamente. O bandido trocou o carregador da arma e fez fogo novamente, desta vez mais longamente, fazendo com que pelo menos dez balas entrassem no corpo de Akenia, jogando-a no chão, já transformada em cadáver.

Continua no próximo capítulo...