
Depois, a vida seguiu seu curso para ambos. Eriol, o diploma na mão, poderia ter continuado em Lavras, na faculdade, como professor, poderia ter seguido uma carreira universitária que, com certeza seria de sucesso, tendo em vista a sua extrema competência e capacidade de esforços. Foi exatamente o que tinha feito Maruko.
Contudo, ele não tinha queria se estabelecer ali, já achava que o tempo de faculdade tinha sido de,ais para ficar num só lugar.
- Preciso de movimento - disse Eriol para Maruko, ao se despedir - Talvez um dia...
E partiu para o interior de Minas Gerais, para Grão Mogol, onde uma empresa de São Paulo estava iniciando uma fazenda de reflorestamento.
Foram três anos de sofrimento, de intenso conflitos consigo mesmo, pois ele não concordava com muitas das políticas da empresa, entre elas, aquela história de desmatar, para depois reflorestar.Porém, sempre fiel ao espírito japonês, tratou de sublimar os pontos negativos e procurou extrair, aprender o máximo possível dessa experiência.
Não foi em vão e, graças ao seu esforço e à competência adquirida ainda que à custa de suor e, muitas vezes, de lágrimas, foi contratado por uma concorrente da empresa de Grão Mogol e assumiu o posto de gerente de projetos numa fazenda que começava a desenvolver um extenso programa de reflorestamento com dendê, no sul do Pará.
Porém, apenas um mês depois, convencera-se de que aquela fazenda e o tal projeto, não eram nada mais do que a verdadeira sucursal do inferno...
Foram mais de três anos de tormentos, de sacrifícios inadmissíveis e de ver aconteceram coisas com que ele jamais poderia sonhar. Como, por exemplo, ver de perto o trabalho escravo, aqueles homens que iam ter à fazenda cheios de esperanças e que eram simplesmente jogados em alojamentos que sequer serviriam como pocilgas, com alimentação da pior qualidade, sem a menor assistência médica ou social... e sem receber um só tostão, pois o que teoricamente ganhavam era retido no armazém da fazenda e isso, quando não era para pagar a mudança para lá. Eriol soube de casos de trabalhadores que ali se encontravam havia já mais de um ano e ainda estavam pagando o próprio transporte - num pau-de-arara - de sua cidade no sul da Bahia, para a fazenda.
Evidente, movido por um espírito de justiça, ele reclamara junto à administração e ouvira, dias depois, um engenheiro mais velho, mais calejado, aconselhar-lhe:
- Japa, lembre-se que em boca fechada não entra mosca... E nunca esqueça que os rios desta região estão cheios de piranhas...
Eriol entendera o recado, tanto assim que nunca mais disse nada e passou a contar os dias até que chegasse a sua demissão, o que aconteceu somente trinta e cinco meses depois.
Uma vez alforriado, Eriol decidiu que não teria mais patrão.
Havia já algum tempo, seu antigo colega de faculdade, Maruko, vinha insistindo em chamá-lo para montarem uma empresa de consultoria especializada em manejo eco-sustentável de florestas.
- Temos de aproveitar a onda! - disse Maruko - Esse é um negócio que vai dar muito dinheiro e, ainda por cima, é uma atividade fundamental para a permanência da vida sobre o planeta!
Eriol resolveu aceitar, desde que essa empresa fosse em qualquer lugar que não fosse Lavras. Não disse para o amigo, mas o motivo era um só:não queria voltar a se encontrar com Akenia.
E, assim, cerca de um ano depois, eles estavam instalados em Vitória, com o Sueto & Hiiragizawa Consultoria devidamente funcionando numa bonita casa do Jardim da Penha, bem perto do Aeroporto de Goiabeiras.
Foi se vestir. Surpreendeu-se ao perceber que escolhia as roupas que ia usar com muito mais cuidado do que de hábito e não pôde deixar de lembrar, quando aparecia na casa dela, depois de um dia de intenso trabalho na fazenda:
- Você não pode andar pela cidade vestido dessa maneira! Não pode vir ao centro com a mesma roupa que usou para curar o gado!
E ele respondia:
- Se passasse em casa para tomar banho e trocar de roupas, demoraria mais para chegar aqui... E perder um minuto de sua companhia parece ser o mesmo que perder um ano inteiro de vida!
Assim, por exigência dela, passara a manter um guarda-roupa na casa da moça. Nem por isso, deixara de chegar sem tomar banho...
- Tomar banho com você é muito melhor - justificou - Você pode esfregar minhas costas e, além disso...
Era justamente o além disso que os entusiasmava e lhes trazia felicidade.
- Ela não poderia ter esse mesmo tipo de queixa...
Tomou um café, acendeu um cigarro e deixou-se cair sobre o sofá da pequena e bem decorada sala do flat, pensando:
- Talvez fosse melhor se eu estivesse ficado com ela...
Bateu a cinza e murmurou:
- Não teria passado tantos momentos de solidão, não teria pensado tantas vezes em desistir...
Levantou-se, deu alguns passos pela sala, sentia-se como um leão enjaulado, impaciente, agitado, contando os minutos.
Percebeu-se ansiado pelo encontro. Dez anos!
- Se as coisas tivessem ocorrido normalmente, com certeza já teríamos alguns filhos - falou, surpreendo-se com o som da própria voz.
Era quase meio-dia quando a campainha da porta soou e ele correu a atender.
Ela estava ali. Ainda mais bonita e desejável do que dez anos atrás. Seus cabelos louros e muito estavam soltos, caindo-lhe sobre os ombros, seu corpo não mostrava ter sentido o passar daquela década, e seu rosto...
Havia uma expressão de felicidade e, ao mesmo tempo, um brilho de ansiedade em seus olhos.
O engenheiro não se conteve mais, abraçou-a com efusão e beijou-a. Primeiro, em ambas as faces e depois sobre os lábios.
Aqueles mesmos lábios sensuais que ele conhecera e que tentara, durante dez anos, esquecer.
- Você não mudou nada, Eriol - disse ela, retribuindo o beijo com ardor - Ou será que posso chamá-lo se... Syaoran?
- E você... está ainda mais bonita com os cabelos tingidos, Sakura. Como me achou? - perguntou Syaoran, puxando-a para dentro do flat.
continua no próximo capítulo...
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