sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


Dez minutos mais tarde, no elegante "Jaguar" de Syaoran, Sakura perguntou:

- O que vai fazer agora? Eu estou, além de faminta, completamente exausta!

Syaoran concordou com um sinal de cabeça e falou:

- Você tem toda a razão. Precisamos ir para Ubatuba, mas antes, é fundamental que você repouse um pouco! Virando o carro para a saída sul de Brasília, ele disse:

- Vamos para um motel. Será um lugar seguro o bastante para que você possa descansar à vontade!

Sakura suspirou, encostou a cabeça no ombro de Syaoran e murmurou:

- Onde está o meu pai?

Syaoran não respondeu . Na verdade, tinha muito medo que os homens de Medellin já estivessem com o deputado e, se isso fosse verdade, estariam desejando agarrar sakura para pressioná-lo...

- Posso apostar que, se seu pai estiver livre, ele vai entrar em contato com Eriol!

Sakura entrou no amplo e confortável apartamento do Sunshine Motel, na estrada para Goiânia.

- Às vezes tenho certeza que sou completamente doida...- falou ela, olhando em torno de si, admirada - quando poderia imaginar que iria a um motel com um homem que mal acabei de conhecer?

Com um sorriso malicioso, Syaoran retrucou:

- Bem... Sempre é melhor do que entrar com mais de um homem, não é verdade?

- Indecente! - exclamou ela, rindo - Você não passa de um ser indecente!

Syaoran caminhou até a grande banheira de hidromassagem, ligou-a e disse:

- Você não deve esquecer que o homem é um animal predador. Estamos sempre caçando...

Experimentou a temperatura da água e aceitando um uísque que Sakura lhe oferecia, completou:

- O diabo é saber distinguir quando somos caça e quando somos caçadores... Neste momento, por exemplo...

- não venha me dizer que eu o estou caçando, delegado! Isso seria o cúmulo!

- Você é quem está dizendo, Sakura! - replicou Syaoran - Eu já me considero caça em suas mãos!

Voltando para o quarto, Sakura descalçou os sapatos e desinibida, virou de costas para Syaoran a ajudasse com os botões de seu vestido.

- Não vejo a hora de entrar naquela banheira- disse a moça.

Sakura olhou para Syaoran e sorrindo, acabou de se despir, brincando os olhos do delegado com a sua maravilhosa plástica.

- Não sei se é para acreditar nessa história de segurança - falou ela - Nesse momento, eu estou tão segura quanto uma ovelha aos cuidados de um lobo!

Minutos depois, em rede nacional, a figura de Eriol apareceu na televisão anunciando que Sakura Kinomoto estava sob a custodia da Polícia Federal e pedindo ao Deputado Fujitaka Kinomoto que entrasse em contadto com ele, Eriol, nos telefones que aparecia na tela, dizendo como senha o prato predileto de sua filha.
Da banheira, Sakura escutou o anúncio e perguntou:

- Como vocês podem saber o meu prato predileto?

- Não interessa, minha querida! - respondeu Syaoran 0 Precisamos que seu pai fale um pouco mais para que haja volume e voz suficiente para os nossos técnicos em áudio conferirem com o seu padrão harmônico de voz. Ia acender um cigarro, quando ouviu Sakura chamá-lo, com um tom morno e rouco na voz:

- Syaoran... Está me ouvindo?

Ele conhecia aquela maneira de articular as palavras: era a caçadora chamando. E a caça era ele!

- Syaoran - tornou a chamar Sakura - Por que não se despe e vem fazer companhia para mim?

Conseguiram adormecer perto de três da madrugada e só despertaram com o sol entrando pela janela aberta sobre o pequeno jardim interno do chalé.

- Você me pôs em sua sala de troféus, Sakura - falou Syaoran, num sopro.

- Não será uma sala de troféus, syaoran - disse a moça, dando-lhe um beijo - Mas sim, um lar...

Syaoran sorriu, retribuindo o beijo. Ele também queria isso. E desde os primeiros momentos daquela noite, ele soube que não poderia haver outra mulher.
Levantou-se, apanhou o celular e ligou para Eriol.

- Não tenho boas notícias, Syaoran - disse este - Não recebi nenhum telefonema que tivesse a voz compatível com o padrão harmônico de Kinomoto. Alguma coisa aconteceu a ele. E acho bom tratar de descobrir, pois a imprensa, depois desses anúncios, está ouriçada! já recebi, só esta manhã, mais de cem telefonemas de repóteres querendo saber porquê aquele anúncio foi veiculado!

- Estou iniciando agora, chefe - disse ele - Tivemos alguns pequenos problemas no início da noite...

eriol riu do outro lado da linha e falou, sarcástico:

- espero que você não tenha tido nenhum problema durante a noite Syaoran! não sei se sabe, mas há um velho ditado: o pote tantas vezes vai à fonte que um dia acaba quebrando!

Syaoran desligou. Detestava quando Eriol começava com aquele assunto, pois afinal das contas, ninguém tinha nada a ver com sua vida particular!

continua no próximo capítulo...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Aruanã


Mas será que foi um seqüestro? - indagou Sakura, angustiada - Será que papai não achou melhor sumir por alguns dias?

Com um sorriso, Syaoran respondeu:

- Não acredito nisso. Conheço seu pai, Sakura. Ele não é homem de fugir. Ao contrário, é daqueles que lutam até o último sopro por alguma coisa em que acredite.

Não mais conseguindo se controlar, a moça recomeçou a soluçar. Syaoran abraçou-a, afastou seus cabelos e disse:

- Não se desespere. Nós vamos procurá-lo. Mas antes , vamos encontrar um lugar seguro para você ficar, pois ...
A moça não o deixou continuar, e quase gritou:

- Nada disso! Eu estarei procurando meu pai junto com vocês!

Um tanto atrapalhado, syaoran tentou argumentar:

- Mas... Há o risco... Não sabemos com quem estamos lidando!

- Eu estarei segura ao seu lado, Syaoran - falou a moça com convicção - E tenho certeza de poder ajudar!

Syaoran viu que Eriol sorria malicioso, e calou. Aliás, teria sido indelicado de sua parte falar onde e como Sakura poderia efetivamente ajudá-lo.

- Está bem... - disse Syaoran, forçando um sorriso - Então, vamos trabalhar!

Voltando-se para eriol, falou:

- Acho que em Ubatuba encontrarei algo mais concreto a respeito de toda esta história. Preciso descobrir qual é o motivo de tudo isso!

Com um gesto de desânimo, ajuntando os papéis do relatório, acrescentou num desabafo:

- Se ao menos pudéssemos saber a origem do dinheiro desse maldito Nunes!

Com voz um tanto insegura, Sakura falou:

- Conheci em Paris um rapaz colombiano que morreu por causa de um overdose. Era riquíssimo e numa ocasião, completamente drogado, disse-me que já tinha estado num laboratório de pasta de cocaína... Disse-me que o homem mais rico do mundo era o responsável pela distribuição da pasta entre os refinadores da droga. esse homem era um tal de Josias Nunes e o rapaz o conhecia porque seu pai era um de seus fornecedores.

Os dois homens da Polícia Federal se entre olharam por um instante e, excitado, apanhando o telefone, Eriol pediu uma ligação para Botogá.

- Mas é claro que eu sei quem é Josias Nunes, Eriol! - exclamou o adido militar na embaixada do Brasil em Botogá - Ele controla todo o tráfico de pasta de cocaína! Está doente, em tratamento na Europa e quem está cuidando Nunes.

Eriol nem sequer agradeceu a boa vontade do diplomata. Estava furioso por essa informação não figurar no banco de dados da central, em Brasília.
Voltando-se para Syaoran, falou:

- Estávamos certos, meu amigo! O que temos nas mãos é uma verdadeira bomba!

Objetivo, Syaoran argumentou:

- O problema é não podemos fazer nada contra esse Fernando Nunes! Ele é apenas o filho de Josias Nunes e não há nenhuma queixa ou acusação contra ele!

Eriol concordou com um sinal de cabeça e falou:

- Isso mesmo. Por isso não podemos agir em nível oficial, por enquanto. Temos de deitar as unhas sobre esse bandido o quanto antes, mas agindo de uma forma que ele não tenha a menor possibilidade de arrumar um advogado capaz de tirá-lo das grades!

Sorriu, bateu nas costas de Syaoran e acrescentou:

- Alias, esta é a sua especialidade, Syaoran! Portanto, boa sorte! Sei muito bem que vai precisar dela!

mostrando Sakura com um discreto gesto de cabeça, acrescentou:

- E lembre-se... Kyotsukete kudasi!

continua...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Aruanã


Sakura Kinomoto entrou na sala de Eriol e, um pouco sem jeito, sorriu.

- Desculpe a intromissão, doutor - disse ela - Sou filha do deputado Kinomoto e achei que seria melhor eu procurar diretamente a Polícia Federal.

Syaoran, como sempre cavalheiro com as mulheres bonitas, apressou-se em puxar uma cadeira para a moça e disse:

- Fez bem, moça. Vamos ajudá-la!

Sakura sorriu, agradeceu com um aceno de cabeça e disse:

- Estou chegando diretamente de Paris e...

De repente ela parou de falar e entrou num pranto convulso.
Ajoelhando-se ao seu lado, Syaoran acariciou seus cabelos e perguntou:

- Mas o que está acontecendo? Por que tanto desespero?

Ela respirou fundo, procurou se controlar e, com esforço, disse:

- Alguma coisa muito grave aconteceu para meu pai. Ele nunca deixaria de ir me apanhar no aeroporto e... Vejo o recado que ele deixou no balcão da Air France! E é a letra do meu pai!

Mostrou para Nogueira um pedaço de papel onde, escrito a mão, estava escrito:

VOLTE IMEDIATAMENTE PARA A FRANÇA. VOCÊ ESTÁ CORRENDO UM GRANDE PERIGO. EU A AMO. SEU PAI.

Eriol suspirou e, voltando-se para Syaoran, falou:

- Quando falamos que Fujitaka deveria estar sob alguma espécie de pressão, eu não estava errado...

Syaoran assentiu com um sinal de cabeça e, virando-se para Sakura, perguntou:

- Como conseguiu sair do aeroporto? Supondo que seu pai estivesse certo ao dizer que você está correndo perigo,é de imaginar que tentassem apanhá-la no aeroporto...

Sakura refletiu por alguns momentos e, abrindo um sorriso que a fazia ainda mais bonita, disse:

- Eu vim disfarçada de hippie, para brincar com meu pai. Depois que recebi o recado,rumei para um hotel vestida como estava, e me troquei antes de vir falar com vocês.

- Temos de localizar Kinomoto...- murmurou Syaoran.

Eriol pegou o telefone ordenando que procurassem o deputado e, cerca de dez minutos depois, desligou-o dizendo:

- Kinomoto não está em lugar nenhum! Sua secretária diz que ele está numa reunião na Câmara. Lá informam que ele está em sua residência e lá ninguém atende!

Chorando novamente, Sakura falou:

- Eu também tentei localizar meu pai e não consegui! Por isso acho que algo aconteceu com ele!

Os dois federais se entre olharam e Syaoran perguntou:

- Você tem certeza de não ter visto ninguém seguindo os seus passos até aqui, Sakura?

- Pelo menos não notei nada- respondeu ela- E procurei prestar bem atenção, pois após o recado deixado pelo papai...

Mas não é possível! - exclamou Nelson Soares - Como ela conseguiu escapar?

- Ora! - fez Márcio Telles, que estava sentado ao volante do automóvel - Ela só poderia estar disfarçada!

Soares ergueu os ombros aborrecido e murmurou:

- Agora,nós teremos um trabalho brutal para localizá-la aqui em Brasília...

- Sakura deve ter ido para um hotel - falou o outro - Ela não foi para casa, pois se tivesse feito isso nós saberíamos. Vamos pedir ajuda ao pessoal da infra-estrutura. Eles têm acesso aos terminais de computadores e poderão saber em que hotel ela se hospedou.

Soares concordou com o companheiro e, apanhando o celular, fez uma ligação. Menos de quinze minutos depois, recebia uma chamada de volta dizendo que a moça tinha estado no Hotel Nacional, mas que, naquele momento, não estava no local.

- Há um dado interessante - falou o homem da infra-estrutura - Durante as duas horas que esteve no hotel, ela pediu para falar com a Polícia Federal por duas vezes, mas por um desses acasos, não conseguiu. A recepcionista disse que é muito provável que ela tenha ido para lá...

Aruanã


Veja bem, Fujitaka - falou o também deputado Manoel Rosa - Eu não sou favorável. Mas recebi um chamado de Ubatuba, esta manhã, O tal Nunes disse-me que nenhum de nós se arrependeria se votássemos a favor da autorização.

- Você está querendo dizer que vai receber dinheiro para isso? - perguntou Kinomoto, com voz rascante.

Manoel ficou ruborizado e respondeu:

- Não é assim... Não sou corrupto, e você sabe disso. Mas preciso do apoio dos eleitores! E não acho que eles sejam contra o jogo em dois hotéis bem específicos, em Ubatuba! De mais a mais, creio que um pouco de dinheiro por ocasião das novas eleições seria muito bom!

Kinomoto não retrucou. Limitou-se a levantar-se, mostrando claramente que não tinha mais nada a dizer ou ouvir. Ele não votaria a favor da autorização e faria campanha para que seus colegas também não votassem!

Não gosto disso - falou Escobar - As coisas pioraram! Não podemos fazer nada, pois não sabemos como vai ficar essa autorização para o jogo!

Nunes franziu as sobrancelhas. Ele sabia que não tinha culpa por as coisas não correrem exatamente como o esperado.

- Sim muito, Escobar - falou ele - Mas a compra desses hotéis não saiu de minha cabeça e sim da cabeça de vocês! Eu teria encontrado uma maneira mais simples de lavar esse dinheiro!

Escobar empalideceu. Não estava acostumado a ser contestado por subordinados.
Por um breve momento, teve ímpetos de esbofetear aquele desaforado, mas sabia que tinha desse controlar e que não podia deixar que seus impulsos pusessem a perder todo o plano que tinha elaborado para lavar o dinheiro que estava prestes a entrar. E aos borbotões. Tudo teria de estar pronto já no início do verão! Porém, as coisas não estavam saindo como ele queria. A divulgação de uma suspeita, qualquer que fosse, antes de se começar a fazer funcionar os cassinos, seria prejudicial para todo o Cartel uma vez que dificultaria a maldita autorização de funcionamento. Ele esperava, a partir do início de Dezembro, faturamentos de cerca de quinhentos milhões de reias por semana somente dos turistas ali no Litoral Norte. Todo esse dinheiro tinha de ser colocado no mercado de uma maneira que parecesse ser oficial.
E nada melhor do que o jogo para se fazer esse tipo de negócio. Um cassino poderia render todo esse dinheiro sem que pudesse fazer muitas perguntas a respeito de sua origem.
Com um sorriso, esforçando-se ao extremo para parecer divertido, Escobar falou:

- Sim, Fernando... Sabemos disso. Infelizmente, acho que nós nos precipitamos um pouco. Mas não adianta chorar sobre o leite derramado... Precisamos de você, Nunes... Por isso nós estamos investindo em sua pessoa. Mas em troca, você precisa nos ajudar.
Interessado, Nunes perguntou:

- E o que sugere, Escobar?

O colombiano refletiu por alguns instantes e, falou:

- Acho que está na hora de fazermos com que o maior responsável pelas dificuldades que estamos passando quanto a essa autorização de funcionamento se convença de que não é interessante para ele e sua família, continuar a ser uma pedra em nosso sapato!
Olhou torvamente para Nunes e, apanhou uma folha de papel de sua primeira gaveta, falou:

- Eis alguns dados importantes a respeito da vida de Fujitaka. Estude cuidadosamente essas informações. A partir de Agora, apresse-se. Lembre-se que contamos com você! Há muito dinheiro rolando nesse nosso negócio e não podemos perder!

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Aruanã


A bordo do Aruanã, Juan Maria Escobar, sobrinho de Pablo Escobar e um dos mais importantes líderes do Cartel de Medellin, olhou para Fernando e disse:

- Agora, temos de conseguir a liberação do jogo em nossos dois casinos!

- Isto está complicado - ponderou Nunes - Pensei que seria mais fácil conseguir que esses deputados votassem a favor. Porém, há uma fatia de parlamentares liderados por Fujitaka Kinomoto que está contra. Às vezes, penso que teria sido melhor se tivéssemos tomado outro caminho!

Escobar meneou negativamente a cabeça e falou:

- Não. O melhor caminho é esse e precisamos da liberação do jogo antes do começo do verão!

Nunes sabia que quando as férias começassem nas universidades e o movimento de turistas se aquecesse, os rendimentos do grupo seriam muito grandes e haveria uma necessidade premente do negócio mais lucrativo de todos os tempos: o tráfico de cocaína.

- Você sabe os métodos - continuou Escobar - Não perca tempo! Intimide esses deputados! Por que não começa pelo chefe de polícia de Ubatuba? Ele andou fazendo muitas perguntas à Polícia Federal a respeito das origens do nosso dinheiro. Mostre que não é saudável mexer conosco! E esse deputado, o Kinomoto? Ele precisa ser convencido a votar a nosso favor!

- Não se preocupe, Escobar - disse Nunes - Sei muito bem como agir! Lembre-se que aprendi tudo isso com meu pai, Josias Nunes!

Escobar riu alto.

- Você tem razão! Josias foi o maior de todos! Era invencível com os seus métodos de convencimento! Nunca tivemos o menor problema quando ele entrava em ação! Foi uma pena que ele tenha decidido se juntar ao Cartel de Cali... Isso acabou por determinar a sua sentença de morte!

Fernando olhou para as suas mãos. Tinha sido ele mesmo, o próprio filho de Josias, o matador incubido de eliminar Josias e de modo a apenas ele e Escobar ficarem sabendo dessa morte. Envenenara-o e sumira com o cadáver para que todos os subordinados - e clientes - pesassem que ele simplesmente estava doente, em tratamento na Suíça. Josias Nunes morrera e Fernando assumira o seu lugar.
Os dois jornalistas deixaram a sala de Maruko ás dez e meia da manhã, decepcionados, mas nem por causa disso, sem esperanças.
Tinha sido uma entrevista difícil, pois Maruko não dispunha de muitas informações para dar, uma vez que, na verdade, ainda não tinha sido cometido nenhum crime. Havia, apenas, um cheiro de encrenca no ar.
Era evidente que ninguém compraria dois hotéis de alto luxo pagando uma fábula À vista, com o objetivo de transformá-los em cassinos num país em que o jogo é proibido! Ali tinha de haver algo por trás!

- Vamos publicar o que temos e faremos algumas considerações a respeito do caso - Disse Yamazaki para seu companheiro, Yukito.

Assim fizeram. Na capa da edição da tarde, em letras garrafais, vinha escrito:

NEGÓCIO SUSPEITO
Há uma trama por trás da compra
dos Hotéis e nossas autoridades não
estão percebendo o que se passa!

No restante do texto os jornalistas faziam perguntas a respeito da origem do dinheiro e prometiam uma investigação por parte da imprensa. O nome de Maruko era citado diversas vezes e algumas frases e considerações que o delegado tinha feito vinham entre aspas, mostrando que eram a transcrição de suas próprias palavras.
Ora... Em Ubatuba não se falava em outro coisa que não fosse naquele negócio. Logo, era de esperar que os jornais que tocassem nesse assunto esgotassem completamente as suas edições e, para Nunes, essa publicidade em torno do negócio que tinham feito, e especialmente as considerações não eram convenientes. Não havia interesse para eles que a opinião pública começasse a formar uma corrente contrária à liberação do jogo naqueles hotéis.
Por outro lado, chamar a atenção para a origem do dinheiro utilizado naquela compra, era perigoso. Portanto, era preciso secar a fonte de problemas em potencial...
Na tarde daquela quinta-feira, os dois repórteres, Yamazaki e Yukito, saíram da redação do Notícias de Ubatuba para fazer uma cobertura jornalística de um concurso literário na Biblioteca Municipal.
À direção do velho "Opala" de cor imprecisa, Yukito falou para o companheiro:

- Quando voltarmos desse concurso, vou ligar de novo para a Polícia Federal. Quem sabe teremos alguma novidade.

Yukito contornou o trevo de entrada na BR-101 e, nesse momento, um "Honda Civic" vermelho emparelhou com ele pelo lado esquerdo.
Na esquina, um pedestre presenciou a cena e, quando a polícia o interrogou, disse:

- O homem que estava no assento do carona do "Honda", jogou para o interior do "Opala"alguma coisa do tamanho de um maço de cigarros. O "Honda" arrancou e o "Opala" explodiu.

Maruko estava em seu dia de folga quando recebeu a notícia da morte dos dois jornalistas.

- Não são aqueles dois que o entrevistaram? - perguntou Akenia, sua esposa.

- Sim - respondeu Maruko - E não gostei da reportagem. Achei que eles foram longe demais em suas suposições! Mas eu estava enganado... Eles não foram longe demais. Simplesmente acertaram em cheio!

- Acha que essas mortes têm a ver com o negócio dos hotéis? - ingadou Akenia, preocupada.

- Sim, é possível - murmurou Maruko.

- Você também fez suposições! E isso pode ser perigoso! - ponderou Akenia, com expressão aterrorizada.

Maruko abraçou a esposa e disse:

- Acho que você não precisa se preocupar... Não podemos simplesmente achar que esses milionários...

Akenia olhou para o marido e interrompeu:

- O que será que eles pretendem, afinal?

- Minha função não é espetacular sobre negócios, querida - falou ele - Enquanto esses homens não transgredirem algum parágrafo da lei, eu não poderei fazer nada contra eles!

Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes e fechando o saco de lixo, Maruko disse:

- Vou legar o lixo para fora.

Apanhou o saco e foi para a caçada, onde ficava a cesta de lixo. Da porta, Akenia viu o caminhão do lixo aparecer. Estranhou que ele estivesse andando tão rápido, mas achou que o motorista estivesse com pressa de recolher o seu lixo.
Tarde demais o delegado e Akenia perceberam que o homem que estava de pé no estribo do caminhão, estava usando terno e gravata. E, em sua mão avia uma metralhadora.
Maruko ainda tentou escapar, jogando-se ao chão e rolando para baixo de um automóvel que estava estacionado ali, mas não teve tempo. Com duas rajadas curtas, o homem atingiu-o, fazendo seu corpo sacudir com os impactos das balas, matando-o. Akenia correu para o marido, gritando desesperadamente. O bandido trocou o carregador da arma e fez fogo novamente, desta vez mais longamente, fazendo com que pelo menos dez balas entrassem no corpo de Akenia, jogando-a no chão, já transformada em cadáver.

Continua no próximo capítulo...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Aruanã


Eriol, chefe de operações da Polícia Federal em Brasília disse, desanimado:

- Acho que teremos problemas com esse caso...

O delegado especial Syaoran Li, sentado diante de Eriol, sorriu.

- Há muito dinheiro envolvido - disse ele - É bem provável...

- Leu os relatórios? - perguntou Eriol.

- Sim - respondeu Syaoran.

Eriol ajeitou os óculos, acendeu um cigarro e falou:

- Vamos recapitular...

Soltou uma baforada para o teto, apanhou uma folha de papel para rabiscar enquanto falava - uma velha mania que tinha e que já lhe custara uma pequena fortuna em psicoterapias - e começou:

- Maruko Sueto, delegado de Polícia em Ubatuba, achou que merecia investigar a respeito de um imenso derramamento de dinheiro em sua cidade.
Riscou algumas flechas no papel - seu psiquiatra costumava dizer que isso era apenas uma manifestação de libido, um símbolo fálico reprimido - e prosseguiu:

- Ele estranhou que um grupo estivesse com tanto dinheiro a bordo de um iate ancorado na marinha do Hotel Saint Maurice. Telefonou para nós perguntando sobre o seu proprietário, Josias Nunes. O pessoal do computador encontrou mais de cem registros, nenhum deles com coisa alguma que possibilitasse a posse de tantos milhões. Pusemos nossos rastreadores em campo para investigar a vida de um por um desses Nunes. Nada foi encontrado de anormal. Imaginamos, então, que esse indivíduo poderia não ser brasileiro, mas nem por aí tivemos alguma luz sobre o caso. Eriol ficou em silencio por alguns segundos, desenhou um violão - que para o seu psiquiatra, significava o desejo subconsciente de prazeres sexuais recalcados e não realizados - e, fixando o olhar em Syaoran, prosseguiu:

- Contatamos a Receita Federal. Inutilmente. Não há nada a respeito de nenhum Nunes que tenha uma fortuna tão grande a ponto de poder efetuar negócio dessa monta.

Apanhando um outra folha em branco, começou a desenhar uma paisagem de montanhas cujos contornos assemelhavam-se aos seios nus de uma mulher. Para o psiquiatra, ele estava manifestando insegurança e desejo de voltar ao colo materno, era um regresso subconsciente à fase oral de seu desenvolvimento e uma necessidade reprimida de carinho feminino, de contato físico com os seios nus de uma mulher. Eriol desistira das sessões de terapia.
Sacudiu a cabeça afastando aquelas lembranças, e continuou o seu ralato:

- Descobrimos que as compras tinham sido efetuadas em nome de um homem, um tal de Fernando Vicente Nunes, filho de Josias Nunes. Os dois negócios foram realizadas no mês de Julho. Já estamos em Agosto e ainda não conseguimos nenhum progresso nas investigações.
Olhando para o chefe, Syaoran perguntou:

- O que quer que eu faça?

- Não sei - respondeu ele - Recebi hoje um pedido de alguns deputados, solicitando informações a respeito desse homem e de sua companhia, uma vez que eles deverão autorizar o jogo nesse hotéis de Ubatuba. Meia hora após eu ter lido essa solicitação, recebi um e-mail assinado por Fujitaka Kinomoto, deputada da oposição que praticamente ordenava a suspensão de toda e qualquer investigação a esse respeito!
Syaoran arregalou os olhos, dizendo:

- É estranhos... Conheço o deputado Kinomoto e acho incrível ela fazer uma coisa dessas! Ele é formalmente contra o jogo! Não creio que Kinomoto tenha feito uma coisa dessas por sua vontade!

Eriol olhou para Syaoran e indagou:

- Acha que Kinomoto esteja sendo pressionada?

- Pode ser - falou Syaoran, após alguns segundos - Alguma coisa está acontecendo e é preciso investigar, descobrir de onde vem tanto dinheiro e quais são as verdadeiras intenções dessas pessoas que estão investindo tão alto em Ubatuba. Isso cheira a lavagem de dinheiro... Por fim, é preciso saber o que está acontecendo com Kinomoto para fazê-la mudar tão radicalmente de opinião a respeito de jogo. E vou encontrar as respostas!

Eriol sorriu. Syaoran Li era o seu delegado predileto. Conhecia-o desde os bancos de faculdade e sabia que Syaoran era um indivíduo teimoso, persistente, muito inteligente e incorruptível, mesmo porque ele era a última pessoa do mundo a precisar do que ganhava como delegado da Polícia Federal...
Neto de imigrantes chineses que chegaram na segunda leva de imigração, em 1912, era herdeiro de milhares de hectares de terras no norte do Estado de São Paulo e dono de dezenas de milhares de reses. Sua renda pessoal era incomensuravelmente maior do que cinquenta vezes o salário de seu próprio chefe.
Só tinha um defeito: não podia ver uma mulher bonita. Se é que isso pode ser classificado de defeito...

- Não esperava outra coisa de você, Syaoran - disse Eriol, apertando a mão do delegado - E, por favor, comece imediatamente!

Syaoran anuiu com a cabeça e, nesse momento, a secretária de Eriol entrou na sala e disse:

- Sinto muito interromper, doutor Eriol, mas ela disse que é extremamente urgente e, de mais a mais, é a filha de uma deputada importante.

Sem esperar mais, a secretária sorriu e voltou-se para a porta, falou:

- Senhorita Kinomoto... Faça o favor de entrar!

continua no próximo capítulo...

domingo, 19 de outubro de 2008

Aruanã


O Aruanã - nome de um peixe alongado e cheio de espinhas dos rios da região do Araguaia - estava ancorado a duzentas braças da marinha do Hotel Saint Maurice, em Ubatuba. Era uma embarcação que mostrava claramente o poderio econômico de seu proprietário e parecia um enfeite para a já tão bonita paisagem.
Nas marinhas destinadas a milionários, ninguém acha estranho que os ocupantes de um barco decidam permanecer a bordo, sem praticamente não irem à terra.
Esses milionários exigem a mais absoluta privacidade. Não querem saber quem está no barco ao lado e, em contrapartida, não desejam que saibam que estão ali.
Assim, ninguém na marinha achou anormal quando o comandante do Aruanã anunciou pelo rádio que seus patrões não queriam ser incomodados.

- Mas há uma vistoria de rotina da Polícia Marítima - avisou o gerente da marinha.

- A polícia pode subir a bordo, mas ninguém mais - disse o comandante.

Dessa forma, na tarde em que ele atracou, os homens da Polícia Marítima procederam à sua vistoria, constataram que nada havia que despertasse qualquer suspeitas e foram embora.
Durante a semana que se seguiu, ninguém desceu do barco. No entardecer do oitavo dia o comandante veio para terra. A lancha de doze pés que o iate carregava encostou no pier, deixando o comandante e mais um tripulante, um homem que parecia ser o elo entre a evolução do gorila e do Homo sapiens, com mais de um metro e noventa de altura e no mínimo cento e cinquenta quilos de músculos.
O que chamou a atenção dos dois guardas da marinha foi o fato de aquele gorila estar carregando na mão esquerda uma maleta de executivo e, na direita, uma metralhadora.
Isso não era muito normal e eles, por obrigação, comunicaram o fato ás autoridades portuárias, que imediatamente tomaram as devidas providências no sentido de investigar um pouco melhor a respeito do pessoal que estava naquele iate.
Porém, não foi preciso iniciarem as investigações. Á noite, o noticiário televisivo falava do negócio que estavam sendo realizado ali em Ubatuba, com Josias Nunes adquirindo por oitocentos e cinquenta milhões de reais os dois hotéis de Ubatuba: oHotel Saint Hotel e o Ubatuba Central Palace Hotel. À vista.
Imediatamente a curiosidade popular se ergueu, perguntando quem seria esse tal de Josias Nunes, dono de tanto dinheiro.
No dia seguinte, essa curiosidade transformou-se em estupefação quando soube que todos os hóspedes, dos dois hotéis, receberam de volta o dinheiro gasto até então, acrescido de uma indenização de vinte mil reias para cada um e um pedido formal para que se retirassem antes da hora do almoço.
Logo em seguida, as equipes de gerência de ambos os estabelecimentos foram substituídas por homens com todo o aspecto de serem altos executivos e que saíram do Aruanã.

- Sim - pensou Maruko Sueto, delegado de Polícia em Ubatuba - Há alguma coisa estranha nisso tudo!
Enquanto Maruko tentava descobrir alguma coisa a respeito daquele homem, a bordo do iate uma importante reunião estava acontecendo.
Sentado à cabeceira da mesa, Fernando Nunes, com cerca de trinta e cinco anos de idade e usando um cavanhaque pontudo, sorriu e circunvagando o olhar ao seu redor, disse:

- Muito bem... Começamos! Papai ficará contente quando souber disso! Os hotéis estão comprados, podemos iniciar a segunda parte do plano. Dentro de pouco tempo teremos os mais luxuosos cassinos do mundo!
Um homem, que estava sentado à sua frente, lembrou:

- Mas... e quanto à proibição do jogo no Brasil? Ainda não temos a autorização especial para o funcionamento do cassinos!

Os olhos do homem de cavanhaque brilharam e ele disse:

- Nós a teremos em mão muito em breve, Estevão. Não haverá empecilho que não consigamos vencer! De mais a mais, nós sabemos usar formas bem especiais para convencer os indecisos... Vamos começar a trabalhar. Agora, teremos de conseguir que o Congresso vote a favor dessa autorização de funcionamento. E vamos usar todos os meios necessários para isso!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Terminada a refeição, Sakura aboletou-se sobre os joelhos de Syaoran e pediu:

- Como conseguiu assumir tão perfeitamente a identidade do pobre Eriol? Como fez para levar uma vida de cidadão normal com o nome dele?

Syaoran respirou fundo e, depois de refletir alguns instantes, contou:

- Naquela noite fátidica, antes de ir à sua casa, abri a caixa que Eriol tinha feito questão de me dar, juntamente com o carro. Ali estavam todos os documentos dele, inclusive os escolares. Isso me possibilitaria recomeçar a vida, longe de Campo Grande, fazendo-me passar por ele. Lembra-se de como éramos parecidos?

Sakura anuiu com um sinal de cabeça e Syaoran continuou:

- Não encontrei nenhuma dificuldade quando decidi vender o carro e comprar outro. Muito menos, quando me matriculei para o vestibular, em Lavras. Daí em diante, foi só uma questão de me habituar com a nova identidade. Só que eu sabia que não poderia ficar muito tempo num único local,pois sempre havia a possibilidade de aparecer alguém que me conhecesse... da minha vida anterior... e tinha você... esboçou um sorriso e falou:

- Como você mesma disse, não era o momento para reencontrá-la. Poderia ser perigoso para você.

Os dois ficaram em silêncio por alguns minutos e, ascendendo um cigarro, Syaoran disse:

- Agora, não quero mais me separar de você, meu amor. E se for preciso que eu me entregue à Justiça...

- Nada disso! - exclamou Sakura - Você não vai se entregar, de jeito nenhum!

Sakura beijou Syaoran com ardor e respondeu:

- Ninguém vai reclamar de nada meu amor... Eriol só tinha os pais e estes voltaram para a Inglaterra depois de vender todas as propriedades. Ninguém mais teve notícias deles. Até acho que já morreram, pois quando partira, ambos não estavam bem de saúde. Quando à morte de Emerson, ninguém terá interesse nenhum em reabrir o caso, pode acreditar. Acho que a única coisa que terá de fazer é não voltar para Campo Grande tão cedo...

Com um sorriso, Syaoran murmurou:

- Isso eu tenho feito. Já perdi negócios bem lucrativos porque me neguei a ir para lá. E pode acreditar que foi muito complicado encontrar desculpas para dar ao meu sócio...

Ergueu os olhos para Sakura e perguntou:

- Quer dizer que você acha que eu devo continuar como Eriol Hiiragizawa? Devo definitivamente esquecer quem sou?

- E não era exatamente isso que você pretendia naquela noite? - inquiriu Sakura - É o que fez durante estes dez últimos anos, inclusive esquecendo de mim...

- Isso não! - negou Syaoran - Jamais a esqueci! Só que, diferentemente de você, eu já não tinha mais esperanças de reencontrá-la!

Os dois se beijaram apaixonadamente e Sakura falou:

- Há tantos segredos neste mundo... segredos que implicam na felicidade de algumas, se não de muitas pessoas! No nosso caso, o segredo só poderá trazer felicidade, querido!

Sorriu, encostou a cabeça no ombro da Syaoran e murmurou:

- Para mim será mais difícil...

Espantado, Syaoran perguntou:

- Difícil?: mas o que será mais difícil?

- Cada vez que eu tiver de chamá-lo por Eriol, estarei lembrando do nosso amigo.

Levantando-se e deixando cair o roupão que estava usando, disse:

- Ele era bonzinho... mas era muito feio!

Puxando o rapaz para o quarto, finalizou:

- Mas pode estar certo que saberei separar as coisas, querido. Cada vez que estivermos juntos... para isto... você continuará a ser o meu Syaoran! E quando for para outras coisas, ou quando eu estiver brava com você, será Eriol!

~Fim~




O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Não está feliz por eu tê-lo encontrado: - indagou Sakura, por sua vez - Meu retorno atrapalha sua vida?

Na realidade, o fato de Sakura tê-lo encontrado poderia representar não apenas um obstáculo, mas sim o fim de tudo.

- Não, minha amada - respondeu ele - Ainda que não saiba o que farei de hoje em diante...!

Abraçou-a mais uma vez e acrescentou:

- Mas sei o que vou fazer hoje... E acredite que sonhei com isso durante todos esse anos!

Sorrindo, Sakura encostou-se muito a ele e , começando a lhe desabotoar a camisa, disse:

- Também senti muito a sua falta, Syaoran... E, depois que passou o primeiro ano, achei que nunca mais iria vê-lo.

Beijou-o novamente e, com um movimento sensual do corpo, fez escorregar para o chão o vestido, e falou:

- Comecei a juntar as peças do que-cabeça quando vi o nome de Eriol na relação de formandos da Universidade de Lavras.

Deixando-se levar para a cama, pediu:

- Mas vamos guardar as explicações para depois... Agora, pelo amor de Deus, deixe-me matar as saudades! Deixe-me amá-lo como antes, caso contrário acho que sou capaz de morrer de desejo!

Passava de três horas da tarde quando o serviço de quarto trouxe para o flat a moqueca que eles tinham pedido.

- Quando vi o nome de Eriol Hiiragizawa, num primeiro momento, não o associei ao nosso amigo que morrera de leucemia. Porém, instantes depois, percebi que não poderia ser o caso de um homônimo. Era muito estranho, seria coincidência demais... Eriol era um ano mais velho e, quando morreu, estava no terceiro ano de engenharia civil, na Politécnica de São Paulo. Como poderia estar formando - e com quase três anos de atraso - em engenharia florestal, na Universidade de Lavras?

Serviu o prato de Syaoran e continuou:

- Tive vontade de ir imediatamente para Lavras e fazer algumas perguntas para o pessoal da faculdade. Porém, achei que não deveria me precipitar, pois poderia levantar suspeitas a seu respeito e isso , com certeza, seria prejudicial.

Com um sorriso, tomou um gole de vinho e explicou:

- Afinal, uma juíza fazendo perguntas sobre um engenheiro...

- juíza? - espantou-se Syaoran - Você é uma juíza?

- Sim - respondeu Sakura - Formei-me em Direito, prestei concurso para a magistratura e eis-me aqui... juíza Federal.

- Vai me denuncia, então? - perguntou Syaoran, em tom de brincadeira, mas sem conseguir esconder uma expressão preocupada no rosto.

- Eu vim prendê-lo, Syaoran - respondeu Sakura - Vim prendê-lo ao meu lado pelo resto da vida!

Curvando-se sobre a mesa, o roupão abrindo-se e deixando que Syaoran visse os seus seios, ela falou:

- Não há nada contra Eriol Hiiragizawa, a não ser o fato de ele estar morto há dez anos...

- O que não me exime do crime de falsidade ideológica, no mínimo - ponderou Syaoran.

- Isso é verdade - admitiu a moça - Mas também é verdade que um criminoso só está sujeito à pena depois de denunciado, processado e condenado. E você foi apenas denunciado... não houve processo, pois a cúpula do Fórum lá de Campo Grande achou que seria melhor negócio deixar morrer o caso.

Com a expressão consternada, Sakura disse:

- O juiz, o promotor e o delegado, através de testas-de-ferro e de manobras jurídicas, mas desonestas, acabaram ficando com a fazenda que foi do seu pai. E é claro que, para eles, o melhor era pôr uma pedra em cima do caso o mais depressa possível. Assim, a morte daquele salafrário chamado Emerson, e que tinha sido atribuída a você, ficou como mais um dos muitos casos de impunidade neste nosso país. Como ele não tinha família, o único interessado pelo promotor, sabia que não deveria se manifestar demais, tendo em vista que reavivar a ferida só poderia prejudicar seus planos.

Syaoran meneou afirmativamente a cabeça e Sakura continuou:

- Muitas e muitas vezes cheguei a ter vontade de falar o que eu sabia - ou que pelo menos desconfiava, com muita probabilidade de estar certa - sobre a sua falsa identidade. Seria uma maneira de tê-lo de volta, de assumir a sua defesa e, com quase certeza, de absorvê-lo. Porém, isso não aconteceria, em Campo Grande, O juiz talvez nem mesmo conseguisse condená-lo, mas certamente você morreria nas mãos do delegado para impedir que tivesse de devolver a fazenda. Assim, fiquei quieta e apenas limitei minha ação a mantê-lo sob minha vigilância.

Abriu um sorriso, serviu mais moqueca para Syaoran e falou:

- Acompanhei seus passos, ainda que à distancia. Resisti à tentação de fazer um contato direto antes da hora. Isso poderia ser perigoso, tanto para você como para mim.

- O que quer dizer com antes da hora? - perguntou Syaoran, intrigado - Você quer dizer que a hora chegou?

Sakura deixou que ele terminasse de encher o seu cálice de vinho e respondeu:

- Sim. A hora chegou, querido. Eu já não estava agüentando mais a sua ausência e... olhando intensamente para Syaoran, disse:

- Quando soube que você tinha montado uma empresa aqui em Vitória, comecei a mexer os meus pauzinhos e, depois de muita luta, consegui ser transferida para o Tribunal Federal do Espírito Santos...

continua no último capítulo...

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Depois, a vida seguiu seu curso para ambos. Eriol, o diploma na mão, poderia ter continuado em Lavras, na faculdade, como professor, poderia ter seguido uma carreira universitária que, com certeza seria de sucesso, tendo em vista a sua extrema competência e capacidade de esforços. Foi exatamente o que tinha feito Maruko.
Contudo, ele não tinha queria se estabelecer ali, já achava que o tempo de faculdade tinha sido de,ais para ficar num só lugar.

- Preciso de movimento - disse Eriol para Maruko, ao se despedir - Talvez um dia...

E partiu para o interior de Minas Gerais, para Grão Mogol, onde uma empresa de São Paulo estava iniciando uma fazenda de reflorestamento.
Foram três anos de sofrimento, de intenso conflitos consigo mesmo, pois ele não concordava com muitas das políticas da empresa, entre elas, aquela história de desmatar, para depois reflorestar.Porém, sempre fiel ao espírito japonês, tratou de sublimar os pontos negativos e procurou extrair, aprender o máximo possível dessa experiência.
Não foi em vão e, graças ao seu esforço e à competência adquirida ainda que à custa de suor e, muitas vezes, de lágrimas, foi contratado por uma concorrente da empresa de Grão Mogol e assumiu o posto de gerente de projetos numa fazenda que começava a desenvolver um extenso programa de reflorestamento com dendê, no sul do Pará.
Porém, apenas um mês depois, convencera-se de que aquela fazenda e o tal projeto, não eram nada mais do que a verdadeira sucursal do inferno...
Foram mais de três anos de tormentos, de sacrifícios inadmissíveis e de ver aconteceram coisas com que ele jamais poderia sonhar. Como, por exemplo, ver de perto o trabalho escravo, aqueles homens que iam ter à fazenda cheios de esperanças e que eram simplesmente jogados em alojamentos que sequer serviriam como pocilgas, com alimentação da pior qualidade, sem a menor assistência médica ou social... e sem receber um só tostão, pois o que teoricamente ganhavam era retido no armazém da fazenda e isso, quando não era para pagar a mudança para lá. Eriol soube de casos de trabalhadores que ali se encontravam havia já mais de um ano e ainda estavam pagando o próprio transporte - num pau-de-arara - de sua cidade no sul da Bahia, para a fazenda.
Evidente, movido por um espírito de justiça, ele reclamara junto à administração e ouvira, dias depois, um engenheiro mais velho, mais calejado, aconselhar-lhe:

- Japa, lembre-se que em boca fechada não entra mosca... E nunca esqueça que os rios desta região estão cheios de piranhas...

Eriol entendera o recado, tanto assim que nunca mais disse nada e passou a contar os dias até que chegasse a sua demissão, o que aconteceu somente trinta e cinco meses depois.
Uma vez alforriado, Eriol decidiu que não teria mais patrão.
Havia já algum tempo, seu antigo colega de faculdade, Maruko, vinha insistindo em chamá-lo para montarem uma empresa de consultoria especializada em manejo eco-sustentável de florestas.

- Temos de aproveitar a onda! - disse Maruko - Esse é um negócio que vai dar muito dinheiro e, ainda por cima, é uma atividade fundamental para a permanência da vida sobre o planeta!

Eriol resolveu aceitar, desde que essa empresa fosse em qualquer lugar que não fosse Lavras. Não disse para o amigo, mas o motivo era um só:não queria voltar a se encontrar com Akenia.
E, assim, cerca de um ano depois, eles estavam instalados em Vitória, com o Sueto & Hiiragizawa Consultoria devidamente funcionando numa bonita casa do Jardim da Penha, bem perto do Aeroporto de Goiabeiras.
Foi se vestir. Surpreendeu-se ao perceber que escolhia as roupas que ia usar com muito mais cuidado do que de hábito e não pôde deixar de lembrar, quando aparecia na casa dela, depois de um dia de intenso trabalho na fazenda:

- Você não pode andar pela cidade vestido dessa maneira! Não pode vir ao centro com a mesma roupa que usou para curar o gado!

E ele respondia:

- Se passasse em casa para tomar banho e trocar de roupas, demoraria mais para chegar aqui... E perder um minuto de sua companhia parece ser o mesmo que perder um ano inteiro de vida!

Assim, por exigência dela, passara a manter um guarda-roupa na casa da moça. Nem por isso, deixara de chegar sem tomar banho...

- Tomar banho com você é muito melhor - justificou - Você pode esfregar minhas costas e, além disso...

Era justamente o além disso que os entusiasmava e lhes trazia felicidade.

- Ela não poderia ter esse mesmo tipo de queixa...

Tomou um café, acendeu um cigarro e deixou-se cair sobre o sofá da pequena e bem decorada sala do flat, pensando:

- Talvez fosse melhor se eu estivesse ficado com ela...

Bateu a cinza e murmurou:

- Não teria passado tantos momentos de solidão, não teria pensado tantas vezes em desistir...

Levantou-se, deu alguns passos pela sala, sentia-se como um leão enjaulado, impaciente, agitado, contando os minutos.
Percebeu-se ansiado pelo encontro. Dez anos!

- Se as coisas tivessem ocorrido normalmente, com certeza já teríamos alguns filhos - falou, surpreendo-se com o som da própria voz.

Era quase meio-dia quando a campainha da porta soou e ele correu a atender.
Ela estava ali. Ainda mais bonita e desejável do que dez anos atrás. Seus cabelos louros e muito estavam soltos, caindo-lhe sobre os ombros, seu corpo não mostrava ter sentido o passar daquela década, e seu rosto...
Havia uma expressão de felicidade e, ao mesmo tempo, um brilho de ansiedade em seus olhos.
O engenheiro não se conteve mais, abraçou-a com efusão e beijou-a. Primeiro, em ambas as faces e depois sobre os lábios.
Aqueles mesmos lábios sensuais que ele conhecera e que tentara, durante dez anos, esquecer.

- Você não mudou nada, Eriol - disse ela, retribuindo o beijo com ardor - Ou será que posso chamá-lo se... Syaoran?

- E você... está ainda mais bonita com os cabelos tingidos, Sakura. Como me achou? - perguntou Syaoran, puxando-a para dentro do flat.

continua no próximo capítulo...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


A festa de formatura, na sede da fazenda de Maruko Sueto, tinha sido maravilhosa e tinha assim que seus pais encontraram um meio de mostrar a toda a sociedade de Lavras o orgulho que sentiam do filho por ele ter se formado engenheiro florestal e estar com uma noiva tão bonita, inteligente e prestativo.
Havia mais de quinhentas pessoas no jardim da sede, garçons servindo generosamente bebidas e aperitivos, a alegria reinava.
Porém um dos formandos - que naquele instante estava sozinho, bebericando um uísque - não tinha a mesma expressão de felicidade que se via na fisionomia de todos os outros.

- Você parece triste, Eriol - falou uma moça, aproximando-se do rapaz - Por que está assim? Sua família não pôde vir? É por isso?

Com um sorriso maroto, a moça acrescentou:

- Ou será que é por que a namorada também não veio?

O nissei esboçou um sorriso, olhando para Akenia... Inegavelmente, ela era muito bonita. Loura, rosto perfeito com olhos claros, lábios carnudos e sensuais, o corpo maravilhosamente bem feiro, as pernas longas e bem modeladas, as curvas generosas.

- Você sabe que não há outra mulher além de você - murmurou Eriol.

- Pode ser - falou akenia, sem esconder uma ponta de tristeza em seu olhar - Mas nós dois sabemos que a nossa relação...

- ... é muito boa! - exclamou Eriol, interrompendo-a - E também sabemos que não pode ser diferente.

Akenia deixou escapar um suspiro e, encostando-se muito ao rapaz, fazendo com que ele sentisse as suas curvas, falou:

- Infelizmente, é verdade... Mas se eu não tivesse casada com aquele idiota...

Eriol deixou escapar uma risada e, beijando os lábios Akenia, disse:

- De fato, ele é um idiota... Imagine deixá-lo aqui sozinha e ir fazer um curso de um ano nos Estados Unidos! E logo depois de três meses do casamento!
Afastando-se do rapaz, Akenia pediu:

- Vamos para outro lugar, Eriol... Aqui não podemos nem nos beijar direito!

Ainda ofegante depois do amor, Akenia falou:

- Você precisa de uma mulher, Eriol... Não pode continuar assim, vivendo num apartamento sozinho, sem a presença de uma esposa!

- Com certeza você está me fazendo entender que essa mulher deveria ser você... - murmurou Eriol, beijando-lhe a nuca.

- Bem que eu gostaria - disse Akenia, fechando os olhos e estremecendo de prazer - Mas por enquanto, isso é impossível...

Acariciando o rosto do nissei, ela continua:

- Para que nós dois possamos viver juntos, é preciso que aconteçam dois milagres...

Ante a expressão curiosa de Eriol, Akenia disse:

- Primeiro, você precisa adquirir um perfil de marido... E, depois, eu passar a ter o perfil de esposa e não de amante...

- Você esqueceu o terceiro milagre - falou Eriol - Este é o mais difícil... Você precisa se convencer a ser mulher de um homem só!

Impedindo-a de protestar, Eriol beijou-a com sofreguidão e puxou-a novamente para si para uma nova sessão de amor quase selvagem.

- Vamos continuar como estamos, por enquanto - disse ele, recuperando o fôlego depois do amor - Seremos um do outro a cada vez que nos encontrarmos. Depois...

continua...

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Sakura, apavorada, viu que o namorado tinha deixado, sobre o criado-mudo, o revolver e a wakisashi ainda com sangue na bainha.

- Pelo amor de Deus, Syaoran! - implorou ela - Conte-me o que aconteceu! Não me deixe sofrer ainda mais!

Mais uma vez, Syaoran não respondeu. Abraçou a mulher, amou-a desesperadamente como se, de fato, aquela fosse a última vez e, quando terminaram, quando ambos chegaram ao êxtase, ele disse:

- Vou ter que fugir, Sakura... Fugir de Campo Grande para sempre! E não posso esperar que me acompanhe, mesmo porque isso seria muito perigoso para você!

Impediu-a de falar pousando-lhe o indicador sobre os lábios e prosseguiu:

- Não vou poder dizer para onde vou, pois nem mesmo eu sei. Talvez um dia voltaremos a nos encontrar. mas como isso ainda é absolutamente incerto, é melhor que não me espere, é melhor que esqueça completamente de mim.

Beijou-a e falou:

- Na verdade, será muito melhor que você se convença de que eu simplesmente morri...

Não permitindo que ela o interrompesse, contou-lhe o que tinha acontecido e, ao terminar, disse:

- Matei um homem, Sakura. Um escrivão de polícia. Não sossegarão enquanto não me encontrarem, pode apostar. E eu não quero ser preso, não acho que mereço uma pena, pois eliminei um bandido dos piores.

- Pois eu irei com você, Syaoran... Queira ou não! Meu lugar é ao seu lado, e você sabe disso! - gemeu Sakura, soluçando.

- Não. Seria perigoso, como já lhe disse... E perigoso para mim também, pois eu teria que me preocupar com a sua segurança. Eu seria encontrado e preso muito rapidamente.

Esboçou um sorriso e juntou:

- Da maneira como vou fugir, sei que ainda terei alguma chance de escapar. E você, além do mais, tem que terminar a faculdade... Você mesma sabe quanto teve se sacrificar para entrar na Faculdade de Direito e quanto deseja tornar-se uma advogada competente e respeitada.

Levantou- voltou a se vestir e disse:

- Não diga a ninguém que esteve comigo hoje. Será melhor que a relacionem com a minha fuga, será muito mais seguro se você não disser que me viu esta noite.

Sakura balançou a cabeça num assentimento e, voltando a abraçar o namorado, entre lágrimas e soluços, balbuciou:

- Estarei esperando por você, meu amor... Cuide-se! Não deixe que nada de ruim lhe aconteça! Sei que vamos nos reencontrar e então sim, seremos um do outro novamente!

O toque insistente do telefone celular arrancou o engenheiro florestal Eriol Hiiragizawade um mundo de sonhos para a realidade crua de sua vida.
Atendeu e, se ainda estava meio sonolento, despertou de imediato ao ouvir a voz que dizia:

- Demorei muito para encontrá-lo... Na verdade, foram dez anos!

Eriol tentou raciocinar depressa e, depois de uma breve pausa, falou:

- Impossível... Estou até na Internet... Tenho um site...

- Preciso encontrá-lo - interrompeu a pessoa- E tem que ser agora! Diga-me onde está que irei até aí.

Foi sem nem mesmo pensar que o engenheiro deu-lhe o endereço do flat que estava ocupando, na Praia do Canto, na capital do Espírito Santo.

- Estou no Rio de Janeiro - disse a voz - No Galeão... Dentro de máximo duas horas chegarei aí. Espere-me.

A ligação foi cortada e Eriol ficou olhando para o celular em sua mão, ainda tentando se convencer de que realmente recebera aquela ligação e que não tinha sido um sonho.
Olhou para o relógio, constatou que passava pouco de nove horas da manhã e lembrou-se que tinha combinado ir a Anchieta passar o domingo e pescar com seu sócio. Teria que desmarcar...
Voltando a apanhar o celular, ligou para o sócio pediu mil desculpas por ser obrigado a faltar com o compromisso e disse:

- Essa pessoa é muito importante, Maruko. Terei que recebê-la e muito bem! Isso pode significar que eu nem mesmo possa ir ao escritório amanhã...

- Mas amanhã temos a reunião com o pessoal da Aracruz Celulose! - protestou Maruko - E sua presença é imprescindível!

- Você poderá suprir a minha falta - retrucou Eriol - Como eu disse, essa pessoa é muito importante e, possivelmente, o futuro de nossa sociedade dependerá disse encontro.

Recusou-se terminantemente a dar mais explicações e desligou, sabendo que deixara Maruko carregado de preocupações.
Levando consigo o celular - não podia adivinhar se ela ligaria novamente - Eriol foi para o banheiro se aprontar.
Enquanto fazia a barba, o engenheiro murmurou:

- Dez anos! Como o tempo passa!

continua...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Distraído com o seu copo de uísque, Emerson só percebeu que Syaoran Li estava ao seu lado quando este falou ao seu ouvido:

- Chegou a sua hora, desgraçado! Olhe bem para mim, quero que leve para o inferno a lembrança de quem vai mandá-lo para lá!

O escrivão levou um susto e a sua primeira reação foi tentar pegar um pistola que sempre levava consigo.

- Mas... o que está fazendo aqui? - disse ele, com a voz esganiçada pelo medo.

Li, com a mão esquerda, impediu-lhe o movimento de tentar sacar a arma e falou:

- Você matou minha família e, pior ainda, estuprou a minha irmã! Chegou a sua hora de morrer, miserável! E eu quero que saiba por quê está morrendo!

Emreson tentou gritar, mas foi em vão. Li, num movimento muito rápido e preciso, desembainhou a wakisashi e fez com que a afiadíssima lâmina cortasse a garganta de Emerson, quase de orelha a orelha e o som que este conseguiu emitir não foi mais de um gorgolejo asqueroso provocado pelo ar saindo-lhe pela laringe aberta e misturando-se com o sangue que vazava aos borbotões.
Li deu um salto para trás, evitando sujar-se com o sangue de Emersone, sem nem mesmo se preocupar se alguém tinha visto o que acontecera, deixou a boate. Na realidade, ele não precisava mesmo ter essa preocupação, pois quem estava ali, naquele momento, estava se importanto apenas com as bebidas que tomavam e com as mulherres que por ali circulavam em movimentos que procuravam ser sedutores, tentando despertar o desejo nos homens para fazê-los gastar bebendo mais e, quem sabe, comprando alguns momentos de amor... Amor mercenário que seria esquecido tão logo o dinheiro correspondente a esses falsos instantes e prazer fosse devidamente recebido.
Syaoran voltou para o carro, deu partida ao motor e, quando já estava saindo da área de estacionamento do Danúbio Azul, lembrou-se da caixa que recebera de presente do amigo que acabara de falecer.
Seguiu por alguns quarteirões e, entrando numa rua lateral, mais deserta, estacionou debaixo de um poste de iluminação e abriu a caixa, pensando em deixá-la com sua namorada, Sakura Kinomoto.

- Será menos uma coisa para carregar em minha fuga - murmurou ele, examinando seu conteúdo.

Viu que ali estava várias apostilas que seu amigo usara para o vestibular, alguns livros, uma antiga régua de cálculos que já não era mais utilizada em nada havia muitos anos, uma calculadora sofisticada e ... todos os seus documentos, inclusive as fichas e certificados escolares.
Deixando que as lágrimas voltasse a brotar de seus olhos, Syaoran Li apanhou a carteira de identidade do amigo, pensando:

- Mas o que vou fazer com tudo isso? Não poderei mais pensar numa faculdade, pois estarei em fuga...

E, então pareceu-lhe ouvir a voz do amigo dizendo:

- Saiba aproveitar a oportunidade que lhe está sendo dada!

Um sorriso ainda, que triste, iluminou o rosto de Li e, voltando a fechar a caixa, ele murmurou:

- De qualquer maneira, não posso deixar de falar com Sakura! E isso tem de ser ainda hoje!

Voltou a ligar o jipe e, dirigindo com cuidado, pois não tinha nenhum interesse em ser parado por um policial por causa de excesso de velocidade ou uma outra imprudência qualquer, rumou para a casa da namorada, uma simpática casinha geminada nas proximidades da rua Humaitá.

- Ainda bem que Sakura mora sozinha - pensou ele - Se ela estiver com os pais, os irmãos ou mesmo uma amiga, não poderia ir vê-la a esta hora!

Ainda estremunhada de sono, Sakura abriu a porta e, muito rapidamente, Li entrou.

- O que houve? - perguntou a moça, já pressentindo que alguma coisa muito grave tinha acontecido - Por que está aqui a esta hora?

E, forçando um sorriso, ela acrescentou:

- Será possível que tenha... sentido vontade... a esta hora da madrugada e não conseguiu segurar o desejo até o dia raiar?

Li não respondeu, limitando-se a abraçar a moça com volúpia, tenso, ansioso, procurando seus lábios para um beijo e apertando-se muito contra seu corpo para sentir-lhe as curvas, os seios... a alma.

- Aconteceu uma tragédia - disse ele, por fim - Na verdade, duas tragédias...

Levando a Sakura de volta para o quarto, falou:

- Não nos veremos mais, meu amor... Pelo menos por um bom tempo! Por isso, esta será nossa última vez...

Sakura estacou, à beira da cama. Com expressão de terror, a moça perguntou:

- Mas... Por que está falando isso? O que aconteceu, afinal? Como pode falar que não nos veremos mais?

Li forçou-a se deitar, despiu-a e, como sempre acontecia, fitou seu corpo perfeito, absolutamente embevecido.
Não pôde conter as lágrimas ao pensar que, de fato, aquela seria a última vez...
Literalmente, arrancou as próprias roupas e deitou-se ao lado de Sakura que, ainda mais apavorada, viu que o namorado tinha deixado, sobre o criado-mudo, o revólver e a wakisashi ainda com sangue em sua bainha.

- Pelo amor de Deus, Syaoran! - implorou ela - Conte-me o que aconteceu! Não me deixe sofrer ainda mais!

fim da primeira parte.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Por alguns minutos, Syaoran ficou ali parado, olhando para o cadáver da irmã, sem saber o que fazer.
Depois, ainda muito lentamente, bastante entorpecido pelo choque, seu cérebro começou a funcionar.
Emerson tinha feito aquilo! O escrivão da polícia! Um homem que sempre se mostrara tão amigo de sua família!
Apanhou um cobertor, cobriu o corpo da irmã e murmurou:

- Não posso acusá-lo... A única pessoas que poderia fazê-lo está morta...

Deixou o quarto de Tomoyo, apanhou o revólver que deixara ao lado do cadáver do pai, foi até a sala e olhou demoradamente para os corpos de sua mãe e de seu irmão.

- Vou vingá-los - disse - Nem que seja a última coisa que farei na vida, mas juro que hei de vingá-los!

Passou para o escritório de seu pai e, atrás de uma bonita gravura de Hiroshigue representado por um daimyo cercado de gueixas, abriu o cofre secreto onde o velho Matsuoka guardava o dinheiro da folha de pagamento da fazenda.
Era um bom dinheiro... Seria muito fácil contratar um matador profissional, mas Syaoran nem mesmo pensou nessa possibilidade. A vingança teria de ser levada a cabo por ele, por suas próprias mãos.
Pegou todo o dinheiro que estava no cofre, voltou a fechá-lo cuidadosamente, recolocando a gravura no lugar. Depois, sentou-se à escrivaninha de seu pai, apanhou uma maleta que estava ao lado da cadeira e pôs dentro dela o dinheiro, o revólver e uma caixa de munição que tirou de uma das gavetas. Ergueu os olhos para a estante que estava à sua frente e demorou o olhar sobre o daishô - o conjunto de espadas, a katana e a wakisashi - que fora de seu bisavô por parte de pai.
Por fim, ergueu-se, apanhou o daishô, a maleta e deixou o escritório, murmurando:

- Esta tudo acabado... Agora, só me resta o Katakiushi... A vingança! E não descansarei enquanto não vingar minha família!

Foi para o seu quarto, preparou uma mala com suas coisas, levou-a para o jipe e pegando um latão de gasolina no galpão onde ficavam guardados os carros da família derramou-o sobre o chão da casa e, especialmente sobre os cadáveres que, chorando muito, juntara num cômodo só. Fez um rastilho com o que restava do combustível e, já com o motor do carro ligado, aproximou um fósforo aceso da gasolina.
A chama correu como uma serpente, alcançou o interior da residência e, numa explosão abafada, incendiou tudo.
Syaoran Li ficou alguns instantes vendo o fogo, lembrando-se de seus parentes enquanto ainda vivos e pensou:

- Pelo menos os curiosos não terão muita coisa para ver...

Assumindo a direção do jipe, olhou mais uma vez o relógio. Passava um pouco das duas horas da madrugada. Àquela hora, a maior parte das pessoas estaria dormindo e, assim haveria pouca probabilidade de alguém ver, ainda que de longe, o incêndio.

- Terei pelo menos duas horas para realizar o que preciso - murmurou, arrancando com o carro - Para um homem como o Emerson, a noite mal terá começado e sei muito bem onde poderei encontrar esse bandido!

A noite não era diferente de qualquer outra, ali no Danúbio Azul, um dos mais conhecidos inferninhos de Campo Grande: as mulheres circulavam de mesa em mesa, fingindo beber e fazendo os clientes beberem, os garçons afobavam-se para servir a todos e, no pequeno palco ao fundo do salão , uma loura de idade indefinida - tanto poderia ter vinte e cinco anos como cinqüenta - cantava boleros de muitas décadas atrás, enquanto duas moças seminuas exibiam-se, os seios à mostra, numa dança que em hipótese alguma acompanhava o ritmo do que estava sendo executado por um conjunto de cinco músicos, um no violão, outro no piano, mais um numa harpa paraguaia e dois na percussão. Como de hábito, nenhum dos clientes estava prestando atenção à música e a atmosfera carregada de fumaça, densa como uma verdadeira neblina, ajudada pela iluminação mortiça amarelo-avermelhada do salão, mal permitia que se enxergasse a mais de cinco metros de distância.
Apesar da má visibilidade que imperava no interior da boate, Syaoran Li não teve qualquer dificuldade em identificar, entre a boa centena de pessoas que ali se encontravam, a figura de Emerson, sentado a uma das mesas no fundo do salão, tendo uma morena sobre seus joelhos.
Seria muito fácil para Li aproximar-se do homem e matá-lo com um tiro do revólver que trazia escondido sob a camisa, sem lhe dar tempo para qualquer reação.
Porém não era isso que ele pretendia fazer. Ele queria que Emerson sentisse a morte em toda a sua intensidade, queria que ele soubesse por quê estava sendo executado.
Assim, a única possibilidade que estava ao seu alcance era fazer com que o escrivão policial saísse da boate e o encontrasse do lado de fora, já à sua espera. Por outro lado, Syaoran não poderia mandar chamá-lo, pois isso obrigatoriamente faria com que houvesse pelo menos uma testemunha que facilmente poderia reconhecê-lo, o que não era interessante para ao seus planos. Ao mesmo tempo, ele não poderia ficar ali, esperando que o homem saísse da boate por sua livre iniciativa... Isso poderia acontecer dentro de cinco minutos ou algumas horas e, se ele demorasse muito, haveria o risco da alguém ver o incêndio e, então...
Fixou o olhar em Emerson, não sem um bocado de dificuldade, procurando ver se alguém, além daquela mulher que o estava beijando como uma noiva apaixonada, estava com o escrivão. Não viu ninguém. Tudo indicava que ele estava sozinho.

- Se essa mulher se afastar dele... - pensou Li, puxando um pouco mais para cima a gola do blusão que estava usando - Talvez eu possa falar com Emerson sem maiores perigos.

Bem se diz que muitas vezes Oni ajeitava as coisas de maneira aos homens poderem cometer atos que, vistos por um certo prisma, seriam malignos...
Exatamente naquele momento, uma outra mulher tocou o ombro da morena que estava com Emerson, cochichou-lhe alguma coisa ao ouvido e esta, beijando mais uma vez o escrivão, levantou-se e acompanhou a amiga em direção ao toalhete.
Era a oportunidade que Syaoran estava esperando, e ele não a desperdiçou.
Segurou com força o cabo da wakisashi que trazia metida no cinto da calça e, em passos rápidos aproximou-se de Emerson que, naquele instante, estava enchendo mais uma vez o copo de uísque.
Sem qualquer cerimonia, sentou-se à direita de escrivão.

Continua no próximo capítulo...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Voltando para a fazenda de seus pais, a bonita fazenda da Saltinho, na zona rural de Campo Grande e na saída para Ribas do Rio Pardo, já à direção do seu carro que fora de seu amigo, Syaoran Li não conseguia tirar de sua mente as imagens daquele trágico últimos dois meses, desde que a leucemia fora descoberta.

Na verdade, ele desconfiara que alguma coisa não estava bem com o amigo a partir do momento em que este rompera o noivado com Tomoyo Daidouji, sua irmã. Evidentemente, Syaoran foi perguntar para ele a razão do rompimento e recebera apenas evasivas pouco convincentes como respostas. Foi só depois de ameacá-lo de nunca mais querer sequer vê-lo, que o amigo contara a verdade:

- Estou com leucemia, Syaoran. Grave. Já em fase terminal. Não sei nem mesmo se conseguirei viver mais uma semana, ou mais um mês, mas tenho certeza que não verei chegar o inverno. Por isso, rompi com a sua irmã. Não acho justo prendê-la, não quero que ela se sinta uma viúva antes mesmo de casar. E não quero que você diga para ela. Deixe-a pensar que eu simplesmente desisti de me casar. Conheço Tomoyo muito bem, e sei que ela sofrerá muito mais se souber que o motivo do rompimento é a minha doença. Ficará mais fácil para restaurar a vida se não tiver conhecimento da verdade.

- Ela ficará com raiva de você - ponderou Syaoran - Não vejo nenhuma necessidade...

- Por favor, faça como estou pedindo - interrompeu o outro - Não conte nada! Como prova de nossa amizade, não conte a verdade para Tomoyo!

Syaoran não concordara com a atitude do amigo, nem com suas palavras. Achava que a irmã tinha que saber a verdade e, assim, revelou-lhe o segredo, acrescentando:

- Ele pediu que não lhe contasse. Mas acho que, no fundo, ele vai gostar de ter o seu apoio, vai gostar de sentir o seu carinho.

Chorando Tomoyo disse:

- Você tem razão, Syaoran. Num momento como este, eu seria a mais egoísta das mulheres se não ficasse ao lado de meu noivo até o fim! Pode ser muito nobre a atitude dele, mas não é a melhor! Ele precisa de mim, precisa de meus cuidados! A mãe dele já está muito velha e a dor que deve estar sentindo, certamente está lhe tolhendo as ações... Eles, a família, precisam de mim!

Naquele mesmo dia, Tomoyo foi visitar o rapaz, usando a aliança de noivado.

- Syaoran me contou - falou ela - Não fique zangado com ele. Nós todos sabemos que você precisa sentir-se apoiado, querido... E eu o amo muito, você sabe disso! E, a partir dessa sua tentativa de querer me poupar o sofrimento, passei a amá-lo mais ainda!

Lembrando-se daqueles episódios e lutando contra as lágrimas que insistiam em lhe escorrer pelas faces, Syaoran chegou, finalmente à casa de seus pais.

Estranhou ao ver a porteira aberta, coisa que jamais acontecia, ainda mais àquela hora da noite.

- Engraçado... - murmurou ele, ao fechar a porteira depois de passar - Meu pai nunca a deixa aberta...

Estacionou diante da varanda da casa e, novamente, achou esquisito que a porta de entrada estivesse escancarada.
Já terrivelmente preocupado, imaginando que a casa tivesse sido assaltada ou que tivesse acontecido algo ainda mais grave, ele entrou.
A primeira coisa que viu foi sua mãe, estendida no chão, com a garganta aberta por um golpe de faca. Ao seu lado seu irmão menor também estava caído,com a marca de uma facada sobre o coração.
Controlando-se da melhor maneira que podia, abaixou-se e constatou que nada mais poderia fazer por eles e, erguendo-se, em passos rápidos passou para o corredor que levava aos quartos.
Seu pai ali estava, caído de costas contra a parede, ainda segurando o revólver. Em sua testa, um feio orifício sangrento mostrava de que forma a vida tinha lhe fugido do corpo. Sem titubear, Syaoran apanhou o revólver da mão do pai e conferiu sua carga: havia seis balas intactas no tambor. Portanto, ele não tinha conseguido disparar um só tiro.
Foi neste momento que ele o gemido.
De um salto, entrou no quarto de Tomoyo e viu-a estendida sobre a cama, nua, o sangue escorrendo a cada vez que ela respirava, por uma perfuração do lado direito de seu peito.

- Tomoyo! - gritou ele correndo para tentar ajudá-la - Mas o que aconteceu?

Tomoyo moveu lentamente os olhos e fitou o irmão. Seus lábios esticaram-se debilmente num sorriso e ela murmurou:

- Você chegou, Syaoran... Mas acho que já é tarde demais...

Syaoran ajoelhou-se ao lado da irmã e esta, num esforço quase sobre-humano, disse:

- Foi o Emerson... O escrivão da delegacia... Ele queria o dinheiro do pagamento dos empregados... Não o achou... Então matou todo mundo e... me estuprou...

Tomoyo tossiu, fez uma careta de dor, tossiu novamente e deixou escapar uma golfada de sangue.

- Vou chamar uma ambulância, Tomoyo! - quase gritou Syaoran - Agüente firme! Você vai ficar boa!

Mas isso não viria a acontecer. Tomoyo soltou outra golfada de sangue, seus olhos se reviraram, ela teve uma convulsão e... mergulhou nas trevas da morte.

sábado, 16 de agosto de 2008

O PREÇO DE UMA VINGANÇA


Fique com isso - pediu o moribundo para seu amigo, Syaoran Li - Não precisarei mais e sei que essas coisas poderão ser úteis a você...

Li sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. Quis dizer que ele não deveria falar assim, que tinha de ter esperanças, afinal de contas a medicina progredira muito nas últimas décadas e, de repente, algum procedimento novo poderia salvá-lo. Porém, sua voz ficou presa na garganta e ele não conseguiu pronunciar nenhuma palavra.

Com muito esforço, o doente continuou:

- Também quero que fique com o meu jipe... Você sempre gostou dele e é outra coisa que não usarei mais...
- Não diga isso - falou Syaoran - Você vai sarar! Vai sarar e ainda vai dirigir por muitos anos o seu carro!
- Não - murmurou o outro - Você sabe que não, tanto quanto eu mesmo. Ainda se tivéssemos descoberto esta leucemia a tempo... Mas não! Só percebi que estava doente quando já era muito tarde... Agora não tem mais jeito, Syaoran... Vou morrer e isso não vai demorar muito!

Syaoran não conseguiu mais se controlar e irrompeu num pranto convulso, dolorido, as lágrimas escorrendo-lhe dos olhos e os ombros sacudindo-se com os soluços.

- Vou levar para o túmulo lembranças muito boas de nossa amizade...

Syaoran se esforçou de maneira quase titânica para se controlar e murmurou:

- É verdade... Vivemos momentos muitos bons...

Esboçou um sorriso triste e perguntou:

- Lembra-se daquele baile, quando contamos para as meninas que você era o meu irmão mais velho? Todos acreditaram e, ainda por cima, disseram que éramos muitos parecidos!

A mão que Syaoran estava segurando, de repente, tornou-se mole, a já débil pressão que os dedos desapareceu por completo.

Syaoran percebeu que o amigo não estava respirando mais... Seus olhos fecharam-se para sempre.

Sentiu que alguém pousava a mão sobre o seu ombro direito e, já chorava outra vez, viu por entre as lágrimas que lhe toldavam a visão, a figura do pai de seu amigo que lhe dizia:

- Ele morreu, Syaoran... Descansou, finalmente, terminaram seus sofrimentos.

Obrigando o rapaz a se levantar, acrescentou:

- Por favor, cumpra suas últimas vontades. Apanhe a caixa que lhe deu e fique com o jipe. Sei que, onde quer que ele esteja , ficará feliz sabendo que você aceitou o presente.